quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

As Controvérsias do Nascimento de Jesus de Nazaré – Quando nasceu?


Presépio: representação do nascimento de Jesus
Desde que foi possível analisar e criticar as Escrituras cristãs sem que a Igreja lambesse em chamas seus opositores, inúmeras controvérsias foram descobertas acerca da vida de Jesus: nascimento, criação, Ministério e morte. As diversas “Vidas de Jesus”, obras lançadas por intelectuais dos séculos XVIII e XIX EC, foram ataques contundentes e ácidos ao homem de Nazaré. Essas obras foram o início de uma longa jornada para construir o que hoje a ciência chama da busca do “Jesus Histórico”, ou seja, a busca do homem de carne e osso que está por trás do mito cunhado há milênios pela fé cristã.
Ao aproximar da data natalina, naturalmente suscita nas mentes interessadas questionamentos acerca do seu nascimento. Sendo assim, vamos, neste artigo, buscar responder, com um viés histórico, quando Jesus nasceu.
Antes de iniciar essa discussão, gostaria de fazer um breve esclarecimento para facilitar a escrita. Como estamos adotando uma postura não religiosa, mudaremos o tratamento que se dá as datas citadas. Ao invés de usar A.C (Antes de Cristo) e D.C. (Depois de Cristo), serão utilizadas as siglas AEC (Antes da Era Comum) e EC (Era Comum). Apesar disso, não há qualquer impacto cronológico em nosso calendário.
De acordo com a tradição cristã podemos afirmar, com uma boa dose de fé, pois todo fiel aprendeu na Igreja e responde sem gaguejar, que “Jesus Cristo nasceu no dia 25 de dezembro, há 2018 anos, em Belém da Judéia, numa manjedoura cercado por animais e presentes, estes oferecidos por três reis magos que vieram do oriente para adorá-lo”.
Para rebater e retificar a resposta dada acima, vamos utilizar as próprias Escrituras cristãs e documentos não cristãos para perceber que não foi bem assim que aconteceu. Veremos também que existem alguns fakes acerca do nascimento de Jesus. No entanto, como já foi dito, vamos apenas discorrer sobre quando ele nasceu. Pois bem, vamos lá:
          
a)    Em que ano Jesus nasceu?
São Mateus e o Anjo
As fontes canônicas do Novo Testamento que relatam o nascimento de Jesus de Nazaré são os evangelhos de Mateus e de Lucas. Ao compará-las entre si com outros documentos não cristãos, vamos concluir que existem inconsistências acerca de seu nascimento.  
A primeira delas é que Mateus afirma que “Jesus nasceu em Belém da Judeia no tempo do rei Herodes”1. Segundo fontes não cristãs, Herodes foi rei de diversas regiões, dentre as quais a Judeia de 37 AEC a 4 AEC, ano em que Herodes morreu.
Lucas, no entanto, afirma que “Jesus nasceu durante o recenseamento imposto pelo imperador romano César Augusto a todas as terras sob o jugo de Roma, enquanto Quirino era governador da Síria”2. De fato, segundo fontes não cristãs, Augusto foi imperador de 30 AEC a 14 EC. Ainda assim, de acordo com o historiador judeu Flavio Josefo, o recenseamento sob Quirino ocorreu em 6 EC apenas na Judeia. Diante do exposto, é praticamente certo que Lucas tenha cometido um equívoco, expandindo um evento local a uma escala mundial, pois não há registros de recenseamento a todo o império sob Augusto.
O deslize de Lucas torna-se pequeno quando comparamos com Mateus. Afinal de contas, segundo Mateus, Jesus nasceu no máximo até 4 AEC. Porém, Lucas afirma que o nascimento ocorreu em 6 EC. Ou seja, de qualquer forma, Jesus não nasceu no início desta Era. Como ocorreu este erro?
O responsável por adequar nosso calendário ao nascimento de Jesus foi o Monge Dionísio, o pequeno, no século VI EC. Ele fez basicamente o seguinte: pegou duas informações contidas em Lucas. A primeira é o ano da pregação de João Batista e a segunda é a idade de Jesus neste período. Pois bem, consta que “a pregação de Batista ocorreu no 15º ano do império de Tibério”3. De fato, Tibério sucedeu a Augusto no ano 14 EC.
Naquela ocasião, os anos eram contatos pelo tempo que cada imperador romano permanecesse no poder. Concomitante a essa contagem, havia também a da fundação de Roma. Sendo assim, o 15º ano do império de Tibério corresponde ao 782º ano da fundação de Roma.
São Lucas mostra sua pintura da Virgem Maria
Lucas afirma que “Jesus tinha mais ou menos 30 anos quando começou seu Ministério”4. Daí o Monge Dionísio fez as contas: subtraiu 29 anos completos de Jesus por 782, concluindo que o nascimento ocorreu em 753º ano da fundação de Roma6. Esse ano caiu justamente 4 anos após a morte de Herodes e 6 anos antes do recenseamento de Quirino. Este ano foi batizado pelo Monge com “anno Domini”, que quer dizer “ano do Senhor”, representando o ano de seu nascimento.
Apesar de toda essa confusão envolvendo o ano do nascimento de Jesus, que foi exposta de forma sucinta acima, há um entendimento dos especialistas de que Jesus nasceu no tempo do rei Herodes entre 8 a 6 AEC.    
O leitor atento vai perceber que Dionísio fundamentou-se em informações muito imprecisas fornecidas por Lucas, principalmente no que diz respeito a sua idade. É provável que o Monge não teve acesso a informações sobre quando se deu a morte de Herodes e o ano do recenseamento sob Quirino, ou simplesmente ignorou, confiando na infalibilidade das Escrituras cristãs.
Segue, portanto, que há um entendimento entre especialistas que Jesus começou seu Ministério com pelo menos 33 anos de idade, podendo chegar até 36.  




Agora, se o ano de seu nascimento é um problema, imagine a data. Com efeito, não há registros nos evangelhos, sejam canônicos ou apócrifos, e nem nas documentações não cristãs da data de seu nascimento.
b) Por que os cristãos comemoram o nascimento de Jesus em 25 de dezembro?
Para explicar essa questão, deve ser levado em consideração uma questão histórica.
Foi a partir do século IV EC que o imperador Constantino se converteu a fé cristã, tornando o Cristianismo a religião oficial do império romano7, e deixando para trás o Paganismo. Sendo assim, é provável que a disseminação da nova religião do império tenha provocado a absorção das tradições pagãs ao Cristianismo. Como exemplo, a data de nascimento de Jesus, que os cristãos comemoram em 25 de dezembro, é na verdade, oriunda de uma festa pagã: a festa do Sol invencível.
Do ponto de vista geográfico, existe uma data no ano que possui o dia mais curto e a noite mais longa. Ela é chamada de solstício de inverno, sendo caracterizado como o início do inverno. Segundo o calendário romano, o solstício de inverno era 25 de dezembro.
O Sol para os romanos tinha um significado muito forte, pois acreditava-se que os astros influenciavam nos destinos das pessoas. No caso do Sol, a imagem de um astro que triunfa sobre a noite escura a cada amanhecer, dá a ideia de vitória, e de uma vitória ininterrupta. Sendo assim, era comemorado em 25 de dezembro o nascimento do Sol, pois, os dias subsequentes começam a se alongar e o Sol a brilhar com mais fulgor. 
Figura de Cristo vestido como o Deus Sol.
Portanto, “era uma das grandes festas do Paganismo; solenes e magníficos jogos eram promovidos pelo soberano em honra do Sol Invencível.”5
Tudo que foi exposto acima acerca da data de nascimento de Jesus foi para mostrar que a tradição cristã referente a esse aspecto não está fundamentada nas Escrituras. Que o Cristianismo sofreu influências do Paganismo quando se tornou difundido no império romano, sendo, do ponto de vista histórico, um fato natural, assim como ocorre a fusão de culturas de povos diferentes quando se misturam.
Entretanto, há especulações sobre as possíveis datas ou períodos que Jesus tenha nascido, baseados em alguns indícios, mas prefiro me abster para não ser demasiadamente especulativo.           
Pois bem, querido leitor, terminamos por aqui essa breve viagem acerca das controvérsias do nascimento de Jesus. Espero sinceramente ter contribuído ao seu senso crítico e ter feito com que repensasse a maneira como encara as Escrituras e as tradições cristãs. Até a próxima!
Por João Viegas
    Referências bibliográficas:
1. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Mateus cap. 2 vv 1.
2. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Lucas cap. 2 vv 1 a 7.
3. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Lucas cap. 3 vv 1 a 3.
4. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Lucas cap. 3 vv 23.
5. Hollard, Auguste. As Origens dos Feriados Cristãos.
6. Luís Carmelo. O murmurar inquieto dos milénios. Disponível em http://www.bocc.ubi.pt/_esp/autor.php?codautor=94
7. Ehrman, Bart D. O Que Jesus Disse? O Que Jesus não Disse? Quem mudou a bíblia e por quê; tradução Marco Marciolino. 2ª edição, Rio de Janeiro, Editora Agir, 2015. 


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4 comentários:

  1. João, que artigo excelente! Achei mt interessante vc apontar o quanto esse tema é controverso apesar de ser tão bem aceita a ideia do nascimento de Jesus em 25 de dezembro e que ocorreu há 2018 anos. Apesar de já ter algum conhecimento a respeito desse assunto, pude ter acesso a diversas informações novas para mim de uma forma muito didática. São estimulantes e mt coerente inciativas como a sua no espiritismo, que nos convida a uma abordagem racional acerca das Escrituras e dos dogmas religiosos.

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  2. Minha querida Vinicia!
    Estou muito feliz por ter contribuído de alguma forma para o esclarecimento desse tema que, como você pôde perceber, é muito controverso. Com uma visão menos romântIca e mais racional das Escrituras é possível concluir que a sua infalibilidade é resultado de um ato de fé dos cristãos. Entretanto, Elas podem e devem ser estudadas também como um roteiro de conduta moral e ética e de regras de bem proceder. Por fim, sou profundamente grato pelas suas palavras, carinho e consideração!!

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  3. Meu amigo! Você não imagina o quanto eu gosto de história e das elucidações dos fatos, trazidas por ela! Nesse artigo pudemos perceber como as informações dogmáticas são passadas de geração em geração, sem que haja um eatude aprofundado do assunto. Na verdade acredito que as pessoas gostam do romântico e preferem ficar na sua zona de conforto, para não se depararem com algo que venha a confrontar suas crenças. Gosto desse assunto! O Jesus histórico tem muito a nos ensinar! Obrigado pelas informações e já espero os próximos artigos! Grande abraço!

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    1. Meu amigo Ítalo! Fico feliz e ao mesmo tempo surpreso (surpresa positiva) pelas suas declarações! É difícil encontrar pessoas que gostam de História. Mais difícil ainda é torna-la interessante ao público em geral. Sei que confrontar a História com as Escrituras torce o nariz de muitos. Mas tomei já algum tempo essa decisão de estudar o Jesus Histórico e agora estou compartilhando parte desses estudos. Agradeço o carinho e consideração! Um grande abraço e até o próximo artigo!

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