sábado, 22 de dezembro de 2018

As Controvérsias do Nascimento de Jesus de Nazaré – Onde nasceu?


E tu Belém, terra de Judá ,
de modo algum és o menor entre os clãs de Judá
pois de ti sairá um chefe
que apascentará Israel, o meu povo.1

Representação da cidade Nazaré, à época de Jesus (TV Record)
Ao ler o Evangelho de Mateus, o leitor atento vai observar que ele recorre insistentemente ao Antigo Testamento, numa tentativa de provar que Jesus de Nazaré é o Messias, o Cristo tão esperado pelo povo Judeu.
A citação acima, retirada do livro do profeta Miqueias, é uma evidência desse expediente utilizado por Mateus. 
A cena é a seguinte: Herodes, rei da Judeia, ficou sabendo que magos estavam à procura do “rei dos judeus” que acabara de nascer. Ele ficou bastante perturbado com a notícia e com ele toda Jerusalém. Reuniu os chefes dos sacerdotes e escribas que conheciam da lei judaica e perguntou onde deveria nascer o Cristo. Eis a resposta dada acima.
Por fim, Mateus e Lucas estão de acordo que Jesus de Nazaré nasceu em Belém da Judeia. Porém, as narrativas são bem distintas, pois Lucas cria uma situação bem embaraçosa, do ponto de vista histórico, para justificar o nascimento do Jesus em Belém. Segundo os especialistas, ele estava tentando apagar da história a verdadeira cidade natal de Jesus: Nazaré.14
O objetivo deste artigo é mostrar as evidências a favor da tese de que Jesus nasceu em Nazaré.
Pois bem, em artigo anterior (Quando Jesus nasceu?) já abrimos uma discussão sobre o relato de Lucas acerca do nascimento de Jesus ter ocorrido durante um recenseamento ordenado pelo imperador romano Augusto. Vamos acrescentar o seguinte: “E todos iam se alistar, cada um na própria cidade. Também José subiu da cidade de Nazaré, na Galileia (Grifos nossos), para a Judeia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser da casa e da família de Davi, para se inscrever com Maria, desposada com ele, que estava grávida. Enquanto lá estavam, completaram-se os dias para o parto, e ela deu à luz seu filho primogênito...”2       
Após o menino Jesus executar uma série de ritos previstos na religião judaica (circuncisão e anunciação no templo), Lucas afirma que eles “voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade. E o menino crescia, tornava-se robusto, enchia-se de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele”.3
José e Maria viajam de Nazaré, para Belém da Judeia (TV Record) 
Esses trechos de Lucas deixam claro que José e Maria moravam em Nazaré, na Galileia, antes mesmo do nascimento de Jesus. Deixam claro também, a despeito dele ter nascido em Belém, ele foi criado em Nazaré.
Ambos os evangelistas, Mateus e Lucas, fazem questão de afirmar que José, pai ou pai adotivo de Jesus, como quiserem chamar, é da linhagem do rei Davi. Este argumento é de extrema importância para Lucas ter que justificar a ida de José à Belém, em decorrência do recenseamento, haja vista que Belém é a cidade de Davi.
No entanto, Mateus vai mais longe. Afirma que após o nascimento de Jesus em Belém, a sagrada família teve que fugir para o Egito para salvar o menino Jesus da ira de Herodes (a tal estória da matança das crianças). Eles retornam para Israel apenas após a sua morte, e foram morar numa cidade chamada Nazaré (Grifos nossos), para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: Ele será chamado Nazoreu.4 
Apesar de Mateus evocar os profetas para justificar o retorno da sagrada família a Nazaré, a própria Bíblia de Jerusalém admite não saber ao certo de onde Mateus tirou esta afirmação.
Do ponto de vista histórico, Herodes tem a fama de ser violento e cruel, pois mandou matar diversos membros de sua família: três filhos e a mulher. Porém, não constam registros de matanças de crianças durante seu reinado na Judeia. Sendo assim, essa passagem pode ser um esforço de Mateus em mostrar que Jesus é o novo Moisés. Segundo a Bíblia de Jerusalém, há uma tradição rabínica que diz que o Faraó mandou matar as crianças recém-nascidas, após tomar conhecimento do nascimento de Moisés. A fuga da sagrada família para o Egito é outro paralelo entre esses dois personagens, pois ambos saíram do Egito em direção a Israel.12 Deve ser levado em consideração também as diversas evocações feitas por Mateus para justificar os eventos do nascimento de Jesus.
Matança de crianças ordenada por Herodes.(TV Record)
Há outras passagens de Mateus que evidenciam que Jesus viveu em Nazaré. Tem uma que ele afirma que Jesus deixou Nazaré para morar em Cafarnaum, após a prisão de João Batista5.  Outra diz que Jesus veio da Galileia até o Jordão para ser batizado. Marcos é mais específico, afirmando que ele veio de Nazaré para o batismo6. 
Sendo assim, podemos inferir, com boa dose de certeza, que essas passagens mostram que ambos os evangelistas da natividade sabiam que Jesus viveu em Nazaré, na Galileia.
O fato de Jesus ter nascido, pelo menos, 10 anos antes do recenseamento (tema já discutido em artigo anterior), mostra que foi uma manobra de Lucas para tentar justificar o nascimento de Jesus em Belém.
Supondo que José tivesse feito a tal viagem de Nazaré para Belém, em que circunstâncias isso ocorreria? Belém dista de Nazaré em linha reta aproximadamente 110 Km. Na melhor das hipóteses, Maria, com 7 a 8 meses de gestação, seria transportada em cima de um burrinho, no máximo uma carroça em estradas bem insólitas. Isso faz algum sentido?
a) Mas será que existem outras pistas nos evangelhos que apontam que Jesus nasceu e foi criado em Nazaré?
A resposta é positiva:
Os evangelhos sinóticos, formados por Mateus, Marcos e Lucas, compartilham da visita de Jesus à Nazaré, durante o seu ministério. Como os relatos são muito semelhantes, pode-se inferir que provém de uma única fonte. Por convenção, descrevemos abaixo o relato de Marcos.
Retorno da Sagrada família à Nazaré, após exílio no Egito, (TV Record)
Saindo dali, foi para sua pátria e os seus discípulos o seguiram. Vindo o sábado, começou a ensinar na sinagoga e numerosos ouvintes ficavam admirados, dizendo: “De onde lhe vem tudo isto? E que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais milagres por suas mãos? Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão? E suas irmãs não estão aqui entre nós?” (Grifos nossos) E estavam chocados por sua causa. E Jesus lhes dizia: “Um profeta só é desprezado em sua pátria, em sua parentela e em sua casa”...7
As pessoas que ouviam Jesus na sinagoga, provavelmente seus compatriotas, o reconhecem como um membro daquela família (filho de Maria, irmãos de Tiago, Joset, Judas e Simão). O texto deixa transparecer certa mediocridade de Jesus durante a sua criação. É possível inferir que ele provavelmente passou despercebido pela comunidade onde vivia.
O texto de Lucas é o mais longo e o que mais possui variações em relação a Marcos e Mateus. Ele é o único a afirmar categoricamente que “Jesus foi a Nazaré, onde fora criado...”8. É fácil inferir que Lucas troca a palavra “pátria” por “criado” para diferenciar que criado é diferente de ter nascido.
É possível abrir um debate sobre o real significado da palavra “pátria” em grego, uma vez que o entendimento que temos hoje da palavra pode ser diferente daquela usada pelo autor. Porém, não nos sentimos com competência para tal proeza. Enfim, apesar de não estar explícito nos textos, há entendimento entre os especialistas que a “visita a sua pátria” relatada em Mateus e Marcos, trata-se de Nazaré.
Por fim, essa passagem corrobora para a tese de que Jesus viveu em Nazaré até o início de seu ministério.   
b) Mas por que é tão complicado, do ponto de vista teológico, aceitar que Jesus nasceu em Nazaré?
Menino Jesus com sua família em Nazaré (TV Record)
Há duas passagens no evangelho de João que mostram o preconceito dos próprios judeus em relação aqueles que vem da Galileia, em especial de Nazaré. A primeira trata de um diálogo de dois homens acerca de Jesus.
Filipe encontra Natanael e lhe diz: “Encontramos aquele de quem escreveram Moisés, na Lei, e os profetas: Jesus, o filho de José, de Nazaré. Perguntou-lhe Natanael: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (Grifos nossos)  Filipe lhe disse: “Vem e vê”.9  
Fica claro na passagem que Filipe teve acesso a informações acerca de Jesus. De fato, o texto de João que antecede o diálogo acima, apesar de truncado, afirma que discípulos de João Batista perguntaram a Jesus onde ele morava. Jesus disse-lhe: “Vinde e vede”. Então eles foram e viram onde ele morava e permaneceram com ele aquele dia.10
A segunda é mais escandalosa, pois confronta com a própria tradição judaica de que o Cristo é da descendência de Davi, devendo nascer em Belém.
Alguns entre a multidão, ouvindo essas palavras (de Jesus), diziam: “Esse é, verdadeiramente, o profeta!” Diziam outros: “Esse é o Cristo!” Mas alguns diziam: “Porventura pode o Cristo vir da Galileia? (Grifos nossos) A Escritura não diz que o Cristo será da descendência de Davi e virá de Belém, a cidade onde era Davi?” 11
Essas passagens mostram de forma clara que era de conhecimento geral que Jesus, sem dúvida alguma, era de Nazaré da Galileia. É intrigante observar que o próprio evangelista João nem se dá ao trabalho de esclarecer que apesar de Jesus ter sido criado em Nazaré, ele nasceu em Belém. Essa tese é apenas defendida por Mateus e Lucas    
Portanto, tendo em vista que os evangelistas da natividade naturalmente defendem a tese de que Jesus é o Cristo, o Messias, e que para ser o Cristo fora necessário ser da descendência do rei Davi e nascer em Belém da Judeia, viabilizando a crença dos judeus em Jesus, o que eles poderiam fazer para resolver o problema que era de conhecimento geral que Jesus é de Nazaré?
Imagino como deve ter sido embaraçoso, para ambos os evangelistas, escrever sobre esse assunto. Tendo que adequar a vida de Jesus as crenças cristãs que começavam a brotar no primeiro século da Era Comum.
Por fim, querido leitor, terminamos mais uma viagem acerca das controvérsias do nascimento de Jesus. Uma tese desta natureza, para ser defendida com vigor, faz-se necessário uma extensa argumentação para subsistir, principalmente quando confronta com questões teológicas. Espero sinceramente ter contribuído para a cultura e o entendimento do leitor. Até a próxima!  

Por João Viegas
    Referências bibliográficas:
1. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Mt cap.2 vv 6.
2. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Lucas cap 2 vv 3 a 7.
3. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Lucas cap 2 vv 39 e 40.
4. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Mateus cap. 2 vv 22 e 23.
5. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Mateus cap. 4 vv 12 e 13.
6. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Marcos cap 1 vv 9.
7. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Marcos cap 6 vv 1 a 4.
8. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Lucas cap. 4 vv 16.  
9. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. João cap 1 vv 45 e 46.
10. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. João cap. 1 vv 39.
11. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. João cap 7 vv 40 a 42.
12. Felipe Costa Silva. O Relato da Infância de Jesus Segundo o Evangelho de Mateus. Revista Expressão Católica. Jul-Dez-2016
13. http://recordtv.r7.com/novela-jesus/videos?mobile_cookie=true&page=32
14. Miranda, Hermínio. Cristianismo: a Mensagem Esquecida.  1ª edição, novembro 1998. Ed. O CLARIM.

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3 comentários:

  1. Caro João, que artigo incrível!! A questão da data tratada no anterior realmente é conflitante, mas certamente para escrever sobre esse foi necessário ainda mais estudo e mt coragem para confrontar de forma tão fria e racional um tema polêmico como esse. Claro, não precisa ser polêmico para nós espíritas que buscamos aprender com a moral ensinada por Jesus, mas não devemos absorver de forma cega ensinamentos dogmáticos que sejam incoerentes. De fato, creio que o conhecimento e a verdade dos fatos só tem a nos acrescentar intelectual e espiritualmente; e, ao mesmo tempo, não diminui em nada os ensinamentos de Jesus e nem o próprio. A mensagem de amor que foi tentada ser transmitida por ele, ao contrário, muitas vezes se confundiu e foi obscurecida por essas questões de interesse político e religioso, além dos preconceitos dos que viviam à época (e tb dos que vivem hj). Agradeço seu empenho em desenvolver um espiritismo sustentado não só pela fé, mas muito em especial, pela razão. A razão guiada pelo bem nos ilumina a mente e o espírito. Espero conhecer mais sobre o Jesus histórico, pois estou apreciando bastante. Obrigada e parabéns pelo artigo!! Abraços!!

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  2. Querida Vinícia!
    Estou muito feliz e grato pelas suas palavras! Sei que é um tema árduo, porém pouco explorado, pelo menos, no movimento espírita. No entanto, a mensagem de amor, de paz, de esperança, de perdão, de alívio das dores, de humildade, de altruísmo, de renúncia, de desapego a matéria e tantos outros ensinos do homem de Nazaré, jamais será apagada da história, seja ela qual for a sua releitura. A crítica feita neste artigo remete-se as primeiras gerações do Cristianismo primitivo que deturparam as Escrituras para atender as necessidades das primeiras comunidades cristãs!
    Por fim, a minha inspiração para escrever um artigo com um viés racional, como você mesma disse, sobre um tema religioso é, sem dúvida, Kardec, o Fundador do Espiritismo.
    Muito obrigado!

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    1. Sem dúvida, Kardec é uma ótima inspiração para os seus estudos que são muito coerentes e alinhados de fato ao "Espiritismo na essência". Grata pela discussão!

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