terça-feira, 15 de maio de 2018

A Imortalidade da alma, segundo Sócrates e Platão

Escultura de Sócrates
Este artigo, que é a continuação de nossos estudos acerca das filosofias socrática e platônica, abrirá o debate sobre a imortalidade da alma segundo esses filósofos. Inevitavelmente, veremos a semelhança extraordinária entre a filosofia de Sócrates e do Espiritismo, semelhança esta que não diminui o mérito da Doutrina espírita, mas ao contrário, reafirma seus princípios como universais.
Não há originalidade nos princípios do Espiritismo, no sentido de que muitos deles já foram difundidos por vários filósofos, profetas e pela própria religião antes da revelação espírita. No entanto, a imortalidade da alma, que é um dogma das religiões, tem sua demonstração positiva e patente no Espiritismo e a sua originalidade está exatamente no seu caráter científico. Por isso, Kardec afirma que os espíritas são os adeptos do Espiritismo, pois compreenderam seus princípios pelo uso da ciência e da razão.
Para abrir este debate é necessário esclarecer a visão de Sócrates sobre a morte. Deixemos Sócrates falar (dialogo com o discípulo Símias):
- … Na nossa opinião, a morte é alguma coisa?
- Sim, certamente, disse Símias.
- Não é outra coisa senão a separação da alma do corpo, não é? Estar morto é bem isso: de um lado, separado da alma, o corpo isola-se em si mesmo; do outro, a alma, por sua vez, separada do corpo, é isolada em si mesma? Ou a morte será outra coisa?
- Não, é isso mesmo, disse ele.1
O conceito de morte dado por Sócrates é confirmado pela Doutrina dos Espíritos. No entanto, devemos complementar que a separação da alma do corpo não é a causa da morte, e sim sua consequência. Vejamos abaixo o que Kardec diz a esse respeito:
“Assim, não é a partida do Espírito que causa a morte do corpo; esta é que determina a partida do Espírito.”2
Podemos perfeitamente compreender que a palavra Espírito usada por Kardec no trecho acima tem o mesmo significado da palavra alma usada por Sócrates. 
O diálogo acima nos remete a questão principal deste artigo: segundo Sócrates, o que é a alma? Deixemos Sócrates nos esclarecer:
- Quando é, pois, continuou Sócrates, que a alma atinge a verdade? Portanto, quando é com auxílio do corpo que ela tenta resolver uma questão qualquer, a coisa, neste caso, é clara: o corpo a engana completamente.
- Dizes a verdade.
- Por conseguinte, não é no ato de raciocinar que a alma vê manifestar-se plenamente a realidade de um ser?
- Sim.
- E sem dúvida, ela raciocina melhor precisamente quando, livre de qualquer perturbação, parta esta dos ouvidos, dos olhos, de uma dor, ou, pior ainda, de um prazer; quando está isolada o mais possível em si mesma, afastando o corpo, interrompendo, na medida do possível, todo o contato com ele, aspira ao real.
- É assim.1
Sócrates dialoga com as pessoas
A alma para Sócrates é a própria consciência, ou seja, a capacidade de nos questionar e buscar respostas sobre a nossa própria existência: quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Essa capacidade independe do corpo. O ato de racionar é atributo da alma e sua manifestação torna-se cada vez mais plena à medida que se desvencilha dele. Isto pode dar-se em vida pelo desapego às paixões humanas que nos prendem à matéria. Mas, por ocasião da morte, ela será totalmente liberta e poderá julgar as coisas de um ponto de vista muito mais amplo, e assim conhecer a verdade.
Apesar de Sócrates admitir sua ignorância, o conhecimento, o saber e a pureza eram a sua busca incessante. Essa busca só terminaria com a libertação da alma por ocasião da morte. Esses são os motivos dele não temê-la. Apesar de se defender com esmero perante os juízes, encarou com tranquilidade o seu julgamento e condenação à morte.
“... o homem verdadeiramente amigo do saber e que alimentou no coração a firme esperança de que em nenhum outro lugar poderia encontrar esse saber na sua plenitude senão no Hades, iria lamentar-se ante a morte e não se alegraria de ir para aquele lugar? Eis o que deve se pensar, amigo, pelo menos se esse homem filosofar realmente; pois ele terá chegado a uma firme convicção de que em nenhum outro lugar encontrará o pensamento em sua pureza, senão naquele. Ora, sendo assim, não seria, como eu dizia há pouco, o cúmulo da falta de razão o medo da morte em tal homem?”1
No contexto do trecho acima, podemos afirmar que o Hades é a terra dos mortos segundo a mitologia grega. Comparativamente, seria o Reino dos Céus proclamado por Jesus, ou plano espiritual revelado pelo Espiritismo.
Os discípulos de Sócrates, diante deste bálsamo de sabedoria, duvidaram e questionaram a seu amigo do saber se realmente a alma é imortal. Naquela ocasião já podemos observar os primórdios da filosofia materialista que teve seu ápice no séc. XIX.  Vejamos o discurso de seu discípulo Cebes.
- Tudo isso, disse ele, na minha opinião, Sócrates, está certo, com exceção daquilo que, dizendo respeito à alma, é para os homens uma abundante fonte de incredulidade. É possível, dizem eles, que a alma, uma vez separada do corpo, não exista mais em nenhum lugar; talvez, no mesmo dia que o homem morra, ela se destrua e morra: desde o instante dessa separação, talvez ela saia do corpo para dissipar-se como um sopro, ou como fumo, e assim, esvaindo-se e desfazendo-se, nada mais seja, em nenhum lugar...”1                
A partir deste momento, teremos Sócrates apresentando a seus discípulos
Separação da alma do corpo por ocasião da morte 
diversos argumentos a favor da imortalidade da alma. Para convencê-los, Sócrates utiliza-se apenas do pensamento e da razão. Naturalmente, vamos encontrar essa postura filosófica na Doutrina Espírita, na defesa de seus pontos fundamentais, que na ocasião da revelação, não podiam ser demonstrados pela ciência. A reencarnação e a pluralidade dos mundos habitados são princípios que foram revelados pelos Espíritos Superiores, através da mediunidade, nos quais Kardec não tinha condições de utilizar a Ciência para corroborar com os ensinos do além. Atualmente, com o progresso da ciência, esses conceitos já estão sendo investigados com caráter científico.
Segue, portanto, que estudar filosofia deve ser um ofício dos adeptos do Espiritismo. O convencimento dos postulados espíritas está diretamente relacionado com o desenvolvimento do raciocínio, da razão. Por isso, a Doutrina nos convida para o salutar hábito da leitura edificante, mas também do estudo das leis espirituais. Em contrapartida, o estudo doutrinário deve implicar no despertar das consciências, na necessidade de mudança de conduta para com o próximo. Pois este é o propósito da revelação espírita. A definição do que é o Espiritismo, feita por Kardec, manda um recado claro sobre este proprósito.
“O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos: como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam destas mesmas relações.”3
Por fim, a filosofia, tal qual aquela proferida pelas palavras de Sócrates e Platão, devem repercutir em nosso foro íntimo na direção de nossa transformação moral.   
Por João Viegas
    Referências bibliográficas:
1. Platão. Fédon. Tradução de Miguel Ruas. 3ª reimpressão. São Paulo - SP, A morte é a libertação do pensamento – Primeira parte.
2. KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, cap. XI, item 18.
3. KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 41ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, preâmbulo.
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