quinta-feira, 12 de abril de 2018

Os Verdadeiros Filósofos segundo Sócrates

Escultura da mãe, parteira e o bebe 

Quando o espírita estuda as filosofias socrática e platônica, fica forçosamente impulsionado a compará-las a espírita, pela semelhança de seus princípios. Isto não significa dizer que o Espiritismo tenha se inspirado ou copiado as ideias de Sócrates e Platão, pois eles viveram muito antes da revelação espírita. Este fato é resultado que as verdades espirituais, que são leis divinas e imutáveis, estão ao alcance de todo aquele que deseja e busca a verdade, desde que a procure com humildade e abnegação. No entanto, vários são os métodos para aquisição deste conhecimento e é nisto que elas se diferenciam. Estudemos de forma detalhada os matizes destas filosofias.
É oportuno esclarecer a maneira pela qual Sócrates encarava a filosofia, pois a sua postura foi um divisor de águas para o mundo greco-romano. Um dos pilares da filosofia de Sócrates chama-se maiêutica. Ele julgava-se desprovido de sabedoria e comparava seu ofício de filósofo ao de uma parteira, que ajudam as mulheres a darem à luz a seus filhos. Sócrates, no entanto, ajudava homens a conceber suas ideias. É por isso que nos deparamos na grande maioria de sua fala, diálogos com seus discípulos, e não monólogos.
O posicionamento maiêutico de Sócrates nos leva a acreditar que é autor da célebre frase: “Conhece-te a ti mesmo”. No entanto, os registros históricos indicam que esta frase foi inscrita na entrada do oráculo de Delfos, templo religioso pagão, onde o deus Apolo profetizava através de uma mulher, chamada sacerdotisa ou pitonisa. Assim, Sócrates afirma que esta é sua busca conforme o trecho abaixo:
- Até agora não fui capaz de conhecer-me a mim mesmo, conforme aquilo do oráculo de Delfos”; “É a alma, portanto, que nos recomenda conhecer quem nos apresenta o preceito: Conhece-te a ti mesmo.”4        
Sócrates é contemporâneo dos sofistas. Os sofistas eram pessoas cultas, especialistas em determinado assunto, viajadas e ganhavam a vida ensinando os cidadãos de Atenas. Os sofistas tinham como pedra angular a seguinte afirmação: “O homem é a medida de cada coisa”1. Isto significa que o certo e o errado, o bem e o mal são relativos, devendo ser avaliados de acordo com a necessidade humana. Assim, a defesa de uma tese dependia apenas dos bons argumentos apresentados, ou seja, para que uma afirmação seja verdadeira, basta apresentar argumentos que convençam o ouvinte de sua veracidade. Assim, para um sofista, a mesma tese pode ser defendida ou acusada de acordo com a necessidade de cada um.
Ruínas do Oráculo de Delfos
De maneira diversa dos sofistas, Sócrates não cobrava pelos seus ensinos. Ia junto ao povo, nas praças, nos mercados para dialogar com as pessoas. Não fez viagens, morando em Atenas por toda sua vida. Acreditava que existia a verdade, pois ela é objeto de desejo de todo filósofo e só poderia ser apreendida quando o homem se desvencilhasse de seu comércio com o corpo. O filósofo deve apenas cuidar da alma. Veja um diálogo com seu discípulo Símias que evidencia este conceito:     
- ... Parece-te próprio de um filósofo preocupar-se com o que diz respeito aos chamados prazeres, como por exemplo, comer e beber?
- O menos possível, Sócrates, respondeu Símias.
- E aos prazeres do amor?
- Não.
- E em relação aos outros cuidados com o corpo? Achas que eles têm algum valor para o filósofo? Assim, por exemplo, a posse de um traje belo ou de calçados caros ou de qualquer outro embelezamento destinado ao corpo, na tua opinião, deve ser coisa que o filósofo tenha em apreço...?
- Ele terá tais coisas em desapreço, disse, pelo menos se for realmente filósofo.
- Então, de modo geral, prosseguiu Sócrates, achas que as preocupações de tal homem não se dirigem ao que concerne ao corpo, mas, ao contrário, na medida do possível, elas dele se separam e se dirigem à alma?
- Sim, sem dúvida.
- Assim, pois, para começar, não é em circunstâncias deste gênero que se revela o filósofo, quando, o mais possível, ele liberta a alma do comércio com o corpo, ao contrário do que fazem os outros homens?
- É claro.
“... Aqueles que, no sentido preciso do termo, cuidam de filosofar, permanecem afastados de todos os desejos corporais sem exceção, mantendo uma atitude inflexível e não cedendo às paixões. A perda de patrimônios, a pobreza, não lhes causa medo, como acontece com a multidão dos amigos da riqueza; e nem a existência sem honrarias e sem glória...”2 

O esquilo Scrat do filme a "A Era do Gelo" apegado à sua noz
Se analisarmos a sociedade atual sob a ótica socrática, concluiremos que o nosso comportamento consumista que o capitalismo nos convida a tomar nos distancia da filosofia, ou seja, de sermos realmente filósofos: a busca pela aquisição de bens materiais apenas para satisfação de nosso orgulho, egoísmo e vaidade é reprovável por Sócrates. Assim, o desapego às coisas materiais deve ser uma diretriz de vida de todo filósofo. Portanto, o filósofo é acima de tudo um homem de conduta. Mas por que se deve ter esta postura?
Continuemos com Sócrates:
“Se, com efeito, é impossível, na união com o corpo, conhecer algo com pureza, das duas uma: ou não nos é possível, de nenhuma maneira, adquirirmos o saber ou, então, somente será possível quando estivermos mortos, pois será apenas nesse momento que a alma estará em si mesma e por ela mesma, separada do corpo, e não antes.” 2
“Além disso, durante o tempo que a nossa vida possa durar, estaremos – segundo parece – o mais perto do saber precisamente quando tivermos o menos possível comércio ou sociedade com o corpo...” 2
A busca da sabedoria, da pureza, do conhecimento, da verdade está diretamente relacionada à sua conduta, ao seu comportamento, principalmente no que diz respeito ao desapego às coisas materiais. Segundo Sócrates, esse saber poderá ser alcançado em vida à medida que nos desapegamos das coisas materiais, mas só será completo quando nos separarmos definitivamente do corpo, por ocasião da morte.
Este diálogo naturalmente suscita outro questionamento: O que é alma para Sócrates? Esta questão não será respondida neste momento, sendo assunto para o próximo artigo deste blog, quando daremos prosseguimento à filosofia Socrática e Platônica. Porém, faço uma breve reflexão: o espírita pode ser enquadrado como um verdadeiro filósofo segundo Sócrates? A afirmação de Kardec abaixo tem alguma relação com o pensamento de Sócrates:
Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.” 5
Deixo a cargo do amigo leitor esta reflexão comparativa entre os verdadeiros filósofos e espíritas.
Por João Viegas
Referências bibliográficas:
1. O Mundo de Sofia – Romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr.. 24a reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, Cap. Sócrates ...mais inteligente é aquele que sabe que não sabe.
2. Platão. Fédon. Tradução de Miguel Ruas. 3ª reimpressão. São Paulo - SP, A morte é a libertação do pensamento – Primeira parte.
3. O Mundo de Sofia – Romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr.. 24a reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, Uma voz divina, Cap. Sócrates.
4. Concepção e imortalidade da alma em Platão, Evandro PEGORARO Juliano de SOUZA, Jun-Dez 2010, Revista Mirabilia 11.
Site internet:
5. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 99ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Os bons espíritas, cap. XVII Sede Perfeitos.

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