terça-feira, 25 de abril de 2017

O Espiritismo é Ciência? Última parte

Metodologia: Controle universal do ensino dos Espíritos
Chegou, por fim, a vez da metodologia. Para falar sobre a metodologia criada por Kardec devemos entender um pouco mais sobre as características do mundo dos Espíritos.
Assim como há a diversidade humana, existe também a diversidade dos Espíritos
A diversidade dos Espíritos é um dos princípios elementares da Doutrina Espírita, pois é resultado das observações dos fatos, por meio dos fenômenos espíritas. Este princípio traz consequências diretas à ciência espírita, pois Kardec teve que se munir de critérios e métodos para dividir e classificar os Espíritos, e consequentemente as suas comunicações. Observem abaixo o que ele escreve a esse respeito:
 “Um dos primeiros resultados que colhi das minhas observações foi que os Espíritos, nada mais sendo do que as almas dos homens, não possuíam nem a plena sabedoria, nem a ciência integral; que o saber de que dispunham se circunscrevia ao grau, que haviam alcançado, de adiantamento, e que a opinião deles só tinha o valor de uma opinião pessoal. Reconhecida desde o princípio, esta verdade me preservou do grave escolho de crer na infalibilidade dos Espíritos e me impediu de formular teorias prematuras, tendo por base o que fora dito por um ou alguns deles.”1
A conclusão de Kardec de que a opinião dos Espíritos tem o valor de uma opinião pessoal é fundamental para compreender muitos pontos da Doutrina espírita, pois se um dos seus propósitos é revelar aos homens as verdades espirituais, como obtê-las diante de um cenário tão insólito?
A cobrança da mediunidade é um obstáculo ao Espiritismo
Kardec teve que se precaver de muitos problemas inerentes às manifestações espíritas, pois sabia que para conseguir alcançar as comunicações do mais alto conhecimento e sabedoria deveria se desvencilhar do charlatanismo, do embuste e da comercialização da mediunidade, práticas muito comuns a sua época e até os dias de hoje.
Mas isso não era suficiente. Mesmo as sessões espíritas cujos seus participantes: médiuns, esclarecedores e ouvintes fossem mulheres e homens de bem com as melhores das boas intenções, podem ser vítimas de espíritos mistificadores, que se passam por vultos dignos de respeito, apenas para ganhar a nossa confiança e plantar ideias equivocadas, controversas ou maliciosas com o intuito de criar a dúvida, a discórdia e a divisão.
Para se prevenir de todas as dificuldades inerentes à mediunidade, ele lançou as bases da ciência espírita, que se chama “Controle Universal do Ensino dos Espíritos”2. Uma metodologia na qual vários Espíritos, em locais diferentes, com médiuns distintos, nos ensinam espontaneamente sobre as questões da mais alta gravidade para filosofia: quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Ele pôde comparar os ensinos que possuíam coerência, lógica e concordância daqueles que não passavam de um equívoco, de uma opinião pessoal ou de uma ignorância.
Veja abaixo a relevância que Kardec dá a essa metodologia para a Doutrina Espírita:
Essa coletividade concordante da opinião dos Espíritos, passada, ao demais, pelo critério da lógica, é que constitui a força da doutrina espírita e lhe assegura a perpetuidade. Para que ela mudasse, fora mister que a universalidade dos Espíritos mudasse de opinião e viesse um dia dizer o contrário do que dissera. Pois que ela tem sua fonte de origem no ensino dos Espíritos, para que sucumbisse seria necessário que os Espíritos deixassem de existir. É também o que fará que prevaleça sobre todos os sistemas pessoais, cujas raízes não se encontram por toda parte, como com ela se dá. 3
Diante de um quadro histórico que nos permite afirmar que o Controle Universal nasceu e morreu com Kardec, ou seja, nenhum pesquisador espírita após o seu desenlace utilizou-se desta metodologia, é nossa responsabilidade compreender quais foram os motivos que levaram seus continuadores a terem esta postura. Os espíritas do séc. XXI que se preocupam com estas questões devem abrir o debate sobre as novas exigências que a epistemologia imprime sobre a ciência, para descobrirmos se o método criado por Kardec tornou-se obsoleto. Caso o controle Universal esteja caducado, devemos buscar novas soluções de metodologia para dar continuidade ao aprimoramento da ciência espírita. Este debate é longo e requer amadurecimento do movimento espírita para enfrentá-lo, porém, ele é necessário. Este tema será desenvolvido em artigos futuros, no momento oportuno. 
Chegamos ao final desta defesa. Esperamos sinceramente ter apresentado argumentos consistentes e relevantes a favor da ciência espírita, e o querido leitor, que teve a paciência de nos acompanhar até o final desta jornada, possa realmente ter se convencido deles. Esta abordagem nos permitirá visualizar a Doutrina de um ponto de vista muito mais amplo, e nos ajudará a avaliar com propriedade se os rumos que o Espiritismo tomou se distanciaram de sua raiz. Entretanto, com esta postura progressista que o próprio Kardec asseverou para os princípios Espíritas, temos a total liberdade de discordar dele e dos próprios Espíritos, desde que façamos com cautela e discernimento. Mas devemos ficar atentos também às distorções ocorridas e trabalhar para que eles voltem aos seus eixos. Por fim, compreender o pensamento de Kardec, acerca da ciência espírita, é fundamental para seguir em frente, e assim, darmos prosseguimento e aprimoramento ao extenso labor do Fundador do Espiritismo.         
Por João Viegas
         Referências bibliográficas 
1. KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. especial Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, A minha primeira iniciação no Espiritismo, segunda parte.
2. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 99ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Autoridade da Doutrina Espírita, item II, Introdução.
3. KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Introdução à primeira edição publicada em janeiro de 1868.

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