domingo, 28 de fevereiro de 2016

Epistemologia da Ciência: um Breve Esclarecimento

Galileu é considerado o Pai da Ciência Moderna
O objetivo deste artigo é criar subsídios para fundamentar a tese de que, de fato, o Espiritismo é uma ciência. Assim, ele será um artigo auxiliar, um lema como se diz em Matemática, que será utilizado como referência para um artigo futuro que vai expor argumentos a favor da ciência espírita.
Para iniciar este breve esclarecimento, devemos compreender a ideia que o próprio homem tem de Ciência. O discurso filosófico de como deve ser construído o conhecimento científico para validá-lo como verdadeiro, chama-se epistemologia da ciência ou, simplesmente, epistemologia. Vários filósofos já deram a sua contribuição sobre o tema, tornando a ciência mais consistente na elaboração do conhecimento.  A epistemologia não é uma questão simples, porém, podemos extrair seus princípios fundamentais para alcançar nossos objetivos.
Como pedra angular deste debate, precisamos ter em mente qual é o propósito da ciência e o que deve ser feito para alcançar seus objetivos. Para isso, recorro a Ademir Xavier, que é PhD em Física. Veja o que ele diz a respeito:
“... o alvo da ciência é o estudo de um objeto através de teorias que devem obedecer a um conjunto de características, a adequação empírica...”1
Podemos entender por adequação empírica a correspondência consonante, a relação estreita entre a teoria e os fenômenos estudados, ou seja, a teoria ou paradigma como os cientistas preferem assim chamar deve explicar satisfatoriamente todos os problemas decorrentes do experimento.
Assim, o primeiro princípio fundamental que deve ser estabelecido em uma ciência é a definição de seu objeto de estudo, pois sem isso, não há como avançar. Podemos citar, como exemplos, que os corpos celestes que compreendem os planetas, as luas, os cometas e as estrelas são os objetos de estudo da Astronomia, que os seres vivos são os objetos de estudo da Biologia e que os átomos ou elementos químicos são os objetos de estudo da Química.    
Corroborando com o pensamento de Xavier, há consenso entre especialistas da área em epistemologia que “a ciência não começa com um experimento, mas com uma teoria”. Assim, são as teorias que devem direcionar os experimentos realizados pelos pesquisadores, pois se não há teoria, logo não há ciência.
A ideia de que a ciência não é feita apenas de experimentos, foi enunciada de forma didática pelo matemático, físico e filósofo Henri Poincaré, quando ele afirma:
“os cientistas fazem ciência com os fatos, assim como uma casa é feita de tijolos, mas uma acumulação de fatos não é ciência, assim como um conjunto de tijolos não é uma casa”.1
É por isso que Ademir Xavier assevera que “é a teoria que confere status de ciência a um conjunto de fatos observados”1. Assim, o segundo princípio fundamental que deve ser estabelecido em uma ciência é a elaboração de uma teoria ou paradigma consistente que seja capaz de explicar satisfatoriamente os fenômenos observados.
Toda ciência tem larga teoria que foi desenvolvida pelas contribuições de muitos cientistas, que fundamentados em seus antecessores, fizeram avanços significativos, reafirmando e aprimorando princípios, mas também derrubando outros. Assim, citamos Galileu, que é considerado o Pai da ciência moderna, pois rompeu com a visão aristotélica da ciência, aprimorando o telescópio para observar o céu e daí tirando várias deduções do comportamento da natureza. Temos Newton, que desenvolveu seus estudos em mecânica fundamentados em Galileu. Einsten, por sua vez, derrubou o paradigma do absolutismo do tempo e revelou que o espaço não é tão plano como imaginamos, pois a gravidade tem a capacidade de deformá-lo. Portanto, deste brevíssimo histórico, afirmamos que o caráter progressista da ciência é fato incontestável.
Outra questão não menos relevante diz respeito ao escopo da ciência, isto é, quais são os fenômenos e experimentos pelos quais os pesquisadores devem se interessar daqueles que devem ser desprezados. A definição do escopo permite ao cientista não perder o foco de seu trabalho, customizando a própria ciência que está sempre em busca de resultados.
Portanto, o escopo da ciência é seu terceiro princípio fundamental. Assim, podemos exemplificar que o escopo da Astronomia são os movimentos relativos que ocorrem entre os corpos celestes e quais são as causas desses movimentos, que a combinação e arranjo dos elementos químicos, produzindo novos compostos é o escopo da Química e que a estrutura morfológica e fisiológica dos seres vivos é o escopo da Biologia.
Por fim, o quarto e último princípio a ser estabelecido em ciência é a metodologia. Sempre foi um sonho dos cientistas ter a sua disposição um método infalível para se produzir conhecimento científico, ou seja, ter uma receita de bolo que pudesse ser sempre usada para averiguar as consistências das suas teses e teorias. Assim, a ciência estaria protegida de gostos pessoais, cultura, crenças religiosas, experiência de vida dos próprios cientistas que poderiam induzi-los ao erro. No entanto, é consenso entre especialistas da área em epistemologia que é difícil defender a existência de um método científico que conseguisse anular qualquer tipo de interferência pessoal dos pesquisadores. Para alguns estudiosos são esses fatores pessoais que colaboram para o desenvolvimento do conhecimento científico.
Assim, podemos resumir que a ciência deve estar balizada por quatro princípios fundamentais: o objeto de estudo, a teoria, o escopo e a metodologia. Bem definidos estes parâmetros, temos os elementos necessários para caracterizar qualquer manifestação do conhecimento humano como ciência.
Por fim, devemos destacar que os princípios da epistemologia debatidos neste artigo foram desenvolvidos após a revelação espírita. Mesmo assim veremos, no próximo artigo, que o Espiritismo possui todos eles e que Kardec, mais uma vez, esteve à frente de seu tempo como Fundador do Espiritismo.
Por João Viegas
   
  Referências bibliográficas:
1.    Xavier, Ademir. Jornal de Estudos Espíritas Vol. I 2013, seção 2: Artigos Regulares “Reflexões Sobre a Ciência Espírita”.


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