sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Espiritismo e Jesus Histórico

Uma das pinturas mais antigas de Jesus 
Os espíritas do séc. XXI precisam compreender quais são as consequências para o Espiritismo das novas descobertas que a ciência fez acerca de Jesus. Esse estudo é batizado pelos próprios cientistas de Jesus Histórico, uma busca pelo homem de carne e osso por trás do Jesus da fé, cunhado há dois milênios pela religião cristã. Com efeito, temos de um lado a Igreja com sua visão ortodoxa e fundamentalista das Escrituras, e do outro a ciência com sua perspectiva crítica e cética dos textos sagrados. Diante de um cenário de inúmeras controvérsias, são suscitados aos espíritas os seguintes questionamentos: eles devem condenar essas descobertas, pois creem que as Escrituras sagradas são de origem divina, e, portanto, não cabe ponderação? Devem se tornar indiferentes a elas, pois quaisquer descobertas da ciência não interferirão na filosofia espírita? Ou devem abraçá-las e aceitá-las, agregando ao seu conjunto doutrinário, pois assim permite o seu progresso e correção de possíveis pontos equivocados?
Eis acima as indagações que vamos procurar responder para esclarecimento do movimento espírita.
Desde o séc. XIX, período no qual foi revelada a Doutrina Espírita e da publicação de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” há mais de 150 anos, a ciência procura compreender, do ponto de vista histórico, quem, de fato, foi o homem que mais influenciou a humanidade ao ponto de dividir o nosso tempo em antes e depois de seu nascimento: Os religiosos o chamam de Jesus Cristo.
Para alcançar seus propósitos, a ciência, naturalmente, se distanciou da visão mítica, sobrenatural, miraculosa e divina de Jesus criada pela religião para atender as suas necessidades. Diante das inúmeras controvérsias encontradas nos evangelhos canônicos acerca de seu nascimento, vida e morte; das suspeitas de adulterações que os textos sofreram ao longo do tempo; ou simplesmente, dos enxertos de fatos que nunca ocorreram e de palavras que jamais foram proferidas por Jesus, não era mais possível encarar as Escrituras como a única e incontestável fonte de pesquisa. Tinha-se que buscar outros caminhos.
A partir daí, os historiadores começaram a buscar outras fontes de pesquisa que pudessem ajudá-los a descobrir quem foi o Jesus Histórico: qual é o seu verdadeiro nome? Quem são seus pais? Quando e onde nasceu? Onde foi criado? Constituiu família? Quais foram as influências culturais e religiosas que recebeu? Qual é a essência da sua filosofia?
Cavernas de Qumran, no Mar Morto
A Arqueologia deu a sua contribuição, encontrando outros livros e documentos relacionados à vida de Jesus. Muitos deles são chamados de apócrifos, pois, segundo a religião, não são de inspiração divina.
No entanto, a ciência foi em busca também dos documentos mais antigos do Novo Testamento. Ela quer saber qual é a fonte desses escritos, ou seja, ela quer ter acesso aos documentos originais. Apesar de não ter logrado êxito, existem resultados muito relevantes acerca das adulterações que os evangelhos canônicos, os inspirados por Deus, segundo a religião, sofreram.
O primeiro ponto que precisa ser esclarecido é que os espíritas não podem ficar indiferentes a essas pesquisas. O motivo é simples: os Espíritos Superiores colocam Jesus como o modelo de perfeição moral a ser seguido pelos homens e o Espiritismo com a missão de resgatar e complementar a sua mensagem. Assim, tudo o que diz respeito a ele, também diz respeito ao Espiritismo. A publicação de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, contendo as explicações das suas máximas morais em concordância com o ensino dos Espíritos é uma evidência da estreita relação da Doutrina com a vida e filosofia do homem de Nazaré. Portanto, não há como ignorar os avanços da ciência neste sentido.
Outro ponto não menos relevante diz respeito à idoneidade das Escrituras. Para facilitar o entendimento, tomemos como exemplo os dez mandamentos: supondo que eles são de origem divina, é fácil concluir, sob a ótica espírita, que Moisés, ao subir o monte Sinai, recebeu as referidas leis através da sua mediunidade. Um Espírito, emissário de Deus, comunicou-se com ele e transmitiu as regras gerais de bem proceder adequadas ao povo hebreu daquela época.
Mesmo supondo que toda Escritura seja uma obra mediúnica, o espírita que tem a consciência da diversidade dos Espíritos e da influência moral do médium nas comunicações, sabe que nem tudo procede dos bons Espíritos, e mesmo se procedesse, as comunicações correm o risco de serem adulteradas pelo seu intermediário. Cabe a nós, com o uso da lógica, do bom-senso e da razão separar o joio do trigo, com bem disse Jesus. O mais intrigante é que são os próprios Espíritos que fazem essa recomendação, por vezes esquecidas por nós. Veja o que o Espírito Erasto diz a esse respeito:
“...fazei-a (Erasto refere-se às comunicações espíritas) passar pelo crisol da razão e da lógica e rejeitai desassombradamente o que a razão e o bom-senso reprovarem. Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.”1
Portanto, sob esse ponto de vista, as Escrituras devem receber o mesmo tratamento que damos as comunicações de além-túmulo.
Antigo fragmento do Evangelho, Papiro 45 (Século III)
No entanto, se fizermos uma análise menos mística e mais realista das Escrituras, em conformidade com os últimos estudos da ciência, veremos que os quatro evangelhos canônicos foram escritos muitos anos após a morte de Jesus. Que os documentos mais antigos que chegaram até nós datam de muitos séculos após sua morte. Conforme o Ph.D em Teologia, Bart D. Ehrman, afirma: “Nós não apenas não temos os originais, como não temos as primeiras cópias deles. Não temos nem mesmo as cópias das cópias dos originais, ou as cópias das cópias das cópias. O que temos são cópias feitas mais tarde, muito mais tarde. Na maioria das vezes, trata-se cópias feitas séculos depois. E todas elas diferem umas das outras em milhares de passagens...”2. Ele arremata o assunto desta forma: “... há mais diferenças entre os nossos manuscritos que palavras no Novo Testamento.”2 Portanto, diante de declarações tão graves, todo o cuidado é pouco para afirmar qualquer coisa acerca da vida de Jesus e só um cego, diante das evidências, é capaz de tomar as Escrituras como verdades absolutas.
Em qualquer dos casos, concluímos que os espíritas não podem ignorar e nem condenar os estudos da ciência sobre o Jesus Histórico.
Por fim, o caráter científico e progressista do Espiritismo impõe a necessidade de aceitar as novas descobertas e corrigir possíveis pontos equivocados da filosofia espírita que estejam em controvérsias com a ciência. Deixemos Kardec nos esclarecer:
“Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.” 3
Diferente dos que pensam muitos religiosos, a ciência não vem provar a inexistência do homem de Nazaré, mas mostrar que a sua imagem esculpida pela religião cristã é muito diferente daquela que realmente ele foi.
A visão de um homem comum, como qualquer outro de sua época, com pai e mãe conhecidos, nascido e criado numa família numerosa e pobre de uma província subjugada pelo Império Romano; que cresceu de acordo com os preceitos da religião judaica; que aprendeu o ofício de seu pai para sustentar a sua família; que poderia ter se casado e filhos; que à medida que ganhou consciência de si mesmo e do mundo a sua volta, percebeu a necessidade de se fazer uma atualização na lei mosaica, muitas delas arcaicas e antiquadas ao seu tempo; que a hipocrisia dos sacerdotes do seu tempo o indignava, pois pregavam a lei mosaica, mas não a praticavam; que o sofrimento e a ignorância do povo judeu criaram nele um sentimento enorme de compaixão diante das mazelas humanas. Tudo isso, o motivou para arregaçar as mangas e combater de frente os problemas da sua época e dar nova esperança ao povo. Não com armas e exércitos, mas com o sentimento que pode transformar a realidade de qualquer um: o amor.
Finalizo, deixando como reflexão as próprias palavras do homem de Nazaré: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.4 
Por João Viegas
Referências bibliográficas:
1.    KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo XX – Da Influência Moral do Médium, Segunda Parte – Das manifestações espíritas.
2.    Ehrman, Bart D. O Que Jesus Disse? O Que Jesus não Disse? Quem mudou a bíblia e por quê; tradução Marco Marciolino. 2ª edição, Rio de Janeiro, Editora Agir, 2015.  
3.    KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo I, Caráter da Revelação Espírita, ítem 55.
4.    João Cap. 8 vv 32

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6 comentários:

  1. Tema de suma importância para nosso dias. Hoje muitos se utilizam de Seu nome para angariar vantagens em todas as åreas de atuação social e financeira, passando dogmas e conclusões que chegam a ser absurdas, através de interpretações e/ou traduções erradas ao que se rotulou de sagrado. As cópias das escrituras descobertas nas imediações do Mar Morto e no Egito entre 1940 e 1950, em gregos antigo, copta e aramaico, dos quais tivemos acesso aos considerados evangelhos apócrifos, ajudou a elucidar muitos pontos. De certo que alguns dogmas, introduzidos nas religiões cristãs, ao longo desses séculos, estão tão arraigada nos "fiéis" que serão muito difíceis de serem retificados, mas o tempo e maturidades da sociedade deverão contribuir para: recuperar o cristianismo primitivo, buscando a mesangem mais pura possível do Mestre de Nazaré. Uma das missões do Espiritismo.

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    1. Saudações!
      Gostaria de agradecer pela sua contribuição aqui no blog. Só peço, por gentileza, que numa próxima oportunidade, tenha a bondade de se identificar.
      Respeitosamente

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  2. Excelente, meu amigo Viegas! O assunto abordado traz uma grande reflexão sobre a forte influência que antigos dogmas exercem nos dias de hoje. A revelação de novas escrituras, sobre a passagem de Jesus aqui sobre a terra, causa impacto religioso e social, não somente entre os cristãos, mas na sociedade como um todo, independentemente de crença. Tal fato, se tornará nocivo para muitos, principalmente para àqueles que vivem de usurpar os fiéis, através da fé e do dízimo obrigatório e salvacionista. Todavia, a precisão dos fatos, no âmbito da arqueologia, não é algo tratado em primeira pessoa, e, a aceitação "cega" de novas descobertas feitas pela ciência, sobre a vida do Messias, pode causar sérias consequências com um possível surgimento de novas ideologias equivocadas do cristianismo. Tomando parte das palavras de Kardec no texto, quando diz: "Se uma verdade nova se revelar, ele (espiritismo) a aceitará", pode-se elaborar algumas perguntas, tais como: que tipo de verdade está se revelando? qual sua fonte? em que se baseia para tal afirmação? O espírita, que preza pela fé racional, não pode ficar indiferente a tais descobertas, nem tão pouco deixar de questionar sua veracidade. Dessa forma a doutrina espírita, associada à ciência, permanecerá reveladora e baseada na verdade, como ensinou o Jesus histórico. Grande abraço!

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    1. Saudações meu nobre amigo Ítalo!
      Sou muito grato pelas suas excelentes contribuições aqui no blog. Você levantou questionamentos muito relevantes, que precisam ser esclarecidos num momento oportuno para o entendimento de todo espírita que sabe da necessidade da atualização do Espiritismo através da ciência. No entanto, vamos tentar esclarecer de maneira breve, para responder ao nosso estimado amigo.
      Pois bem, quando um cientista afirma determinado fato, que normalmente é uma descoberta ou uma revelação, faz-se necessário que ele se muna de argumentos e procedimentos técnicos, para que sua tese seja aceita pela comunidade científica. Evidentemente, nós, como leigos que somos no assunto, talvez não consigamos compreender os seus argumentos, dada a sua complexidade. No entanto, isso não é motivo para descredenciar a descoberta, pois, se assim procedêssemos, nossas convicções fornecidas pela ciência seriam extremamente reduzidas.
      Só para citar um exemplo mais próximo de nossa formação técnica: hoje não se tem mais dúvida sobre a estrutura atômica formada por um núcleo de prótons e nêutrons envolvido por uma nuvem de elétrons. No entanto, os procedimentos e argumentos que foram utilizados por Rutherford, em sua singular experiência em 1911, com partículas alfa bombardeando uma lâmina metálica, demostrou que o átomo não era uma esfera maciça, como se acreditava até então, mas, sim, um imenso vazio. A grande maioria da população não sabe quem foi Rutherford, muito menos sobre a sua experiência, mas sabe da constituição do átomo (o que já é grande coisa). Esse conhecimento é de longe um artigo de fé, mas o resultado da elaboração do trabalho científico. Por simplicidade, a população só retém os resultados finais da ciência.
      De forma análoga, podemos chegar à mesma conclusão com relação a outras áreas da ciência. Assim, quando o Ph.D Bart D. Ehrman afirma que "há mais diferenças entre os nossos manuscritos que palavras no Novo Testamento.”, isto é resultado de um extenso trabalho em cima dos evangelhos canônicos. Ele está querendo dizer que um determinado evangelho, como o de João, por exemplo, possui diversas versões, e que cada versão difere um da outra em muitas, muitas passagens. Às vezes são divergências simples, como a troca de uma letra ou palavra, em outros casos, tratam-se passagens inteiras que foram suprimidas ou acrescentadas. Observe que não se trata de interpretar os textos, mas sim das diferenças existentes entre as palavras de versões de um mesmo evangelho. Esta análise, naturalmente, não cabe a pessoas leigas, pois todos esses documentos antigos estão em grego. Assim, ficamos mais uma vez com os resultados dos cientistas.
      Para finalizar, meu caro amigo, podemos abrir, em momento oportuno, o debate sobre como deve ser construído o conhecimento científico para validá-lo como verdadeiro e genuíno. Isto é uma área da filosofia que se chama epistemologia da ciência. Este tema será desenvolvido num artigo futuro deste blog.
      Espero sinceramente ter esclarecido o nobre amigo! Fique à vontade para tréplica!
      Um grande abraço!

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  3. Perfeito meu grande amigo! Ratifico aqui minha opinião a favor da ciência e de suas descobertas reveladoras, porém, com um olhar questionador. Muito obrigado pelas palavras esclarecedoras do amigo. Fico aguardando o próximo tema sobre o assunto. Forte abraço!

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    1. Ok meu querido amigo! Fico muito feliz por ter contribuído para esse esclarecimento. Mas não se preocupe, pois duvidar é da natureza humana. É a dúvida que nos impulsiona para o conhecimento. A certeza nos faz ficar inertes. Kardec foi um questionador incansável dos Espíritos. Fez mais de 1.000 perguntas a eles só em "O Livro dos Espíritos". Sigamos o seu exemplo.
      Um grande abraço!

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