sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Liberdade, Religião e Fanatismo - Parte III

Mulher lê livro sagrado com olhos vendados
A compreensão de que as causas do ataque terrorista ao jornal satírico Charlie Hebdo residem no fundamentalismo religioso e também na visão equivocada que a liberdade de expressão pode ser usada de maneira irrestrita e irresponsável, possibilitará um avanço na solução deste tema que nos empenhamos a escrever. Assim, essa é a tese da qual defendemos sobre este caso e vamos buscar argumentos nas próprias religiões e também no Espiritismo para convencer o amigo leitor dela. Com isso, faremos dois artigos: este discorrerá sobre o fundamentalismo religioso. A tese da liberdade de expressão será feita no quarto e último desta série.
Em contra partida, sabemos perfeitamente que existem questões de caráter político e socioeconômicos que contribuem na promoção dessas tragédias. No entanto, entendemos que não cabe neste ambiente um debate sobre o terrorismo sob esta ótica, apesar de indicarmos a pesquisa. Assim, deixemos os cientistas políticos e filósofos levantarem essa bandeira. Quem se interessar, recomendamos a leitura de um artigo publicado no blog do filósofo e teólogo Leonardo Boff. Segue abaixo o link: (recomendação feita pelo nosso amigo Tiago Alves)
Feitos esses esclarecimentos, vamos à defesa da primeira parte desta tese (fundamentalismo religioso):
O primeiro ponto que precisa ser esclarecido é que o ataque ao Charlie foi executado contra civis desarmados. Assim, não faz sentido denominá-lo de “batalha” e nem de “guerra”, uma vez que a parte atacada não tinha a mínima condição de reação. Os terroristas estavam se vingando de todas as ofensas que os cartunistas do Charlie fizeram ao Profeta Maomé publicando as charges com a sua imagem.
Portanto, o que ocorreu naquela redação foi vários homicídios, que usualmente, nós brasileiros, denominamos de chacina.
A crítica ácida que faço acima tem como objetivo tirar qualquer dúvida sobre a natureza do ataque ocorrido naquela manhã de sete de janeiro de 2015.
Vamos analisar agora a visão das religiões e do Espiritismo acerca do homicídio:

Homicídio no Judaísmo:
Pergaminho da Torá
Kardec, no livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo” faz uma distinção didática das leis reveladas e instituídas por Moisés ao povo hebreu. Apesar das escrituras atribuírem toda lei a voz de Deus, podemos dividi-la em duas partes, a saber:
A primeira é os dez mandamentos revelados no Monte Sinai. Pelo seu caráter genérico e universalista, podemos inferir que são de inspiração divina. A segunda refere-se à legislação civil criada por Moisés com fins de controlar o rebelde e endurecido povo hebreu, que infelizmente precisava de leis muito severas, baseadas no temor a Deus para frear suas paixões.
Com isso, o homicídio foi condenado nos dez mandamentos, sem direito a exceções no “Não matarás1. Ironicamente, muitos dos crimes catalogados por Moisés, dos mais bárbaros até os mais brandos, tinham como sentença também a morte. Damos alguns exemplos abaixo retirados do Antigo Testamento:
“Quem ferir um homem e o matar terá que ser executado. Todavia, se não fez intencionalmente, mas Deus o permitiu, designei um lugar para onde poderá fugir. Mas se alguém tiver planejado matar outro deliberadamente, tire-o até mesmo do meu altar e mate-o.”
“Quem agredir o próprio pai ou a própria mãe terá que ser executado.”
“Aquele que sequestrar alguém e vendê-lo ou for apanhado com ele em seu poder, terá que ser executado.2
“Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem, com a mulher do seu próximo, tanto o adúltero quanto a adúltera terão que ser executados.3
“Aquele que oferecer sacrifício a qualquer outro deus, e não unicamente ao Senhor, será destruído.4
A prática de legitimar o homicídio por parte de um grupo social organizado, governo ou estado é ainda utilizada nos dias de hoje através da pena de morte. Tivemos recentemente o caso de um brasileiro que foi executado na Indonésia pelo crime de tráfico de drogas.32
As leis civis de Moisés tem como princípio geral a lei de talião: “Olho por olho, dente por dente5, o que torna legítima a vingança. Assim, as escrituras contêm relatos de atos motivados pelo ódio e também pela intolerância religiosa. Para exemplificar esta prática, resumimos abaixo parte da estória do profeta Elias que em nome do Senhor matou muita gente:
Estátua do Profeta Elias no Monte Carmelo
Conforme relatado nas escrituras, no tempo em que Acabe tornou-se Rei de Israel, ele casou-se com Jezabel. O Senhor (Deus) ficou muito insatisfeito, pois ele começou a cultuar a Baal (outro deus) e adorá-lo. Jezabel estava matando os profetas de Israel. Elias, sabendo disso, e por ordem do Senhor, procurou Acabe e lhe propôs uma prova. Desafiou os profetas de Baal a porem fogo em uma lenha com oferendas, apenas pela invocação do seu Senhor. Aquele que respondesse por meio do fogo é que seria Deus.
Os profetas de Baal, que totalizavam 450 homens, fizeram de tudo para incendiar a lenha, porém sem sucesso. Quando chegou a vez do profeta Elias, ele orou ao Deus de Israel, e o fogo do Senhor caiu e queimou completamente a lenha e tudo que estava em volta.
Todos que assistiram a essa disputa ficaram maravilhados, louvando o Deus do profeta Elias.
Elias, no entanto, mandou prender os 450 profetas de Baal e os matou.6
Mas nem tudo são espinhos e atrocidades na lei hebraica. Podemos encontrar belos ensinos morais que contrariam a lei de talião e sugerem a seus fiéis tomar um rumo diferente em suas vidas. Transcrevemos abaixo alguns deles:
“Não espalhem calúnias entre seu povo.”
“Não se levantem contra a vida do seu próximo. Eu sou o Senhor.”
“Não guardem ódio contra seu irmão no coração; antes repreendam com franqueza o seu próximo para que, por causa dele, não sofram as consequências de um pecado.”
Não procurem vingança, nem guardem rancor contra alguém do seu povo, mas ame cada um o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o Senhor.7         Portanto, se não fizermos uma distinção clara do que é inspiração divina do que foi criado apenas para atender a uma necessidade do povo daquela época, podemos cair em vários sofismas para defender a tese da legitimidade do homicídio pela religião judaica.

Homicídio no Cristianismo:
Quando o Homem de Nazaré afirmou:
Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir8, devemos entender que ele veio complementar a lei de Moisés, mas também substituir ensinamentos equivocados e ultrapassados por outros consonantes com a lei natural. Assim, quando ele diz:
“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas.9, ele está substituindo a lei de talião pela humildade e benevolência, pois recomenda que o mal deve ser retribuído com o bem. No entanto, quando afirma:
“Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não matarás’, e ‘quem matar estará sujeito a julgamento’. Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento.10, ele complementa os dez mandamentos, pois combate diretamente a causa de muitos homicídios: os sentimentos desajustados do ódio, do orgulho ferido e da vaidade.
Pintura Jesus e a mulher adúltera
A passagem da mulher adúltera evidencia o valor que o Homem de Nazaré dava a preservação da vida, independente do sexo, pois a mulher era muito discriminada na sociedade judaica, e da conduta moral. Ela foi levada até ele apenas para constrangê-lo perante as leis de Moisés, pois a condenação do adultério é a morte. A vida dela estava em suas mãos e foi a sua sabedoria que a poupou do apedrejamento. A sua resposta “Aquele dentre vós que estiver sem pecado, que atire a primeira pedra.11, soou forte na consciência de todos que estavam presentes, e a sua absolvição e recomendação: “Vai-te e de futuro não tornes a pecar12, é um recado claro que todos que transgridem a lei merecem uma nova chance.
Mas é possível justificar uma guerra pelas palavras do Homem de Nazaré? Como a Igreja conseguiu convencer seus fiéis a promover as Cruzadas e a Santa Inquisição durante a Idade Média, que provocou o aniquilamento dos hereges do Cristianismo?
Existem passagens que não são muito condizentes com seu espírito pacifista, pois se forem levadas ao pé da letra, podem perfeitamente serem usadas para atender os anseios materialistas dos homens. Kardec dedicou um capítulo especial em “O Evangelho Segundo o Espiritismo” para tratar deste tema, que ele intitulou de Estranha Moral. Citamos apenas uma delas para ilustração deste problema:
Não penseis que eu tenha vindo trazer a paz à Terra; não vim trazer a paz, mas a espada; - porquanto vim separar de seu pai o filho, de sua mãe a filha, de sua sogra a nora; - e o homem terá por inimigos os de sua própria casa.13

Homicídio no Islamismo:
Podemos encontrar muitas recitações no Corão ou Alcorão, livro sagrado para os muçulmanos, que estimulam seus fiéis a cometerem o homicídio. Os textos são tão claros que fica difícil dar uma interpretação mais branda ou pacífica. O alvo principal são aqueles que não professam a fé no Islamismo: judeus, cristãos e pagãos. Transcrevemos abaixo algumas recitações com denotação violenta e homicida. Os termos entre parênteses foram inseridos por nós para facilitar a compreensão do texto.
Capa do Alcorão
Ó Profeta! (Maomé) Incita os crentes ao combate. Se há, entre vós, vinte homens perseverantes, vencerão duzentos. E, se há, entre vós, cem, vencerão mil dos que renegam a Fé, porque estes são um povo que não entende.14
A recompensa dos que fazem guerra a Allah (Deus) e a Seu Mensageiro (Profeta Maomé), e se esforçam em semear a corrupção na terra, não é senão serem mortos ou serem crucificados ou terem cortadas as mãos e os pés, de lados opostos (mão direita e pé esquerdo), ou serem banidos da terra. Isso é desonra, na vida terrena, na Derradeira Vida (ressureição), terão formidável castigo.15
De quando teu Senhor inspirou aos anjos: ‘Por certo, estou convosco: então tornai firmes os que crêem. Lançarei o terror nos corações dos que renegam a Fé. Então, batei-lhes, acima dos pescoços, batei-lhes em todos os dedos.’ Isso, porque discordaram de Allah (Deus) e Seu Mensageiro (Profeta Maomé). E quem discorda de Allah e de Seu Mensageiro, Allah é Veemente punição. – Esse é o vosso castigo: então experimentai-o, e, por certo, haverá para os renegadores da Fé, o castigo do Fogo.16
Outro aspecto que chama atenção é o destino dos fiéis que combatem, matam e morrem em nome de Deus. A bem-aventurança após a morte é prêmio daqueles que seguem à risca as recitações do Alcorão. Segue abaixo algumas delas:
E não suponhas que os que foram mortos no caminho de Allah (pela causa de Deus) estejam mortos; ao contrário, estão vivos, juntos de seu Senhor, e por Ele sustentados17
“...Então, aos que emigraram e foram expulsos de seus lares e foram molestados em Meu caminho (pela causa de Deus) e combateram e foram mortos em combate absolverei das más obras, e farei entrar em Jardins, abaixo dos quais correm rios, como retribuição de Allah (Deus). E junto de Allah está a aprazível retribuição.18
Então, que combatam no caminho de Allah (pela causa de Deus) os que vendem a vida terrena pela Derradeira vida (ressurreição). E a quem combate no caminho de Allah (pela causa de Deus), e é morto ou vence conceder-lhes-emos magnífico prêmio.19
No entanto, o Alcorão dá uma chance para aqueles que professam outra fé, mas desejam preservar suas vidas: basta se converterem ao Islamismo. Vejamos abaixo o que eles devem fazer:
... matai os idólatras (pagãos), onde quer que os encontreis, e apanhai-os e sediai-os, ficai a sua espreita, onde quer que estejam. Então, se voltam arrependidos e cumprem a oração e concedem a zakat (doação para caridade), deixai-lhes livre o caminho. Por certo Allah é perdoador, Misericordiador.20
Então, se se voltam arrependidos (idólatras) e cumprem a oração e concedem a zakat (doação para caridade), serão, pois, vossos irmãos na religião...”21  
Para entender o desejo insaciável por sangue do Profeta Maomé, devemos contextualizar esses escritos do ponto de vista histórico e econômico:
Foi no ano de 622 d.C. que o Profeta Maomé, para salvar sua pele, teve que fugir de Meca e se exilar em Medina. Os líderes do grupo que controlavam a economia de Meca (o grupo chamava-se Quraysh) se beneficiavam com o paganismo e com relações mercantilistas da sociedade daquela época de juros altos e escravidão. O Profeta Maomé, no entanto, pregava o monoteísmo e queria tornar a economia de Meca mais justa, baixando os juros e acabando com a escravidão. Com interesses tão conflitantes e crescimento do Islamismo, a morte do Profeta Maomé chegou a ser planejada pelos líderes do Quraysh. Mas antes que se consumasse o fato, Ele fugiu. Esse ano é considerado pelos muçulmanos o primeiro de seu calendário e é chamado de Héjira.
Dois anos após a Héjira estourou uma guerra entre os muçulmanos e os Quraysh. Após muitos anos de conflito, o Profeta Maomé saiu vitorioso, conquistando a cidade de Meca.
Foi durante essa guerra que o Profeta Maomé recitou os versos mais violentos incentivando seus fiéis ao combate. Daí é possível inferir que as escrituras de caráter belicoso no Alcorão foram específicas para um tempo, lugar e grupo social.
Infelizmente, os muçulmanos fundamentalistas universalizam os ensinamentos do Alcorão, pois eles acreditam que são ordens diretas de Allah (Deus), e, portanto, devem ser seguidas e cumpridas à risca e a qualquer tempo.
Por fim, deixamos para o final dessa parte a face mais branda do Alcorão. Apesar de manter como princípio de justiça a lei de talião dos judeus, Allah (Deus) recebe os pecadores desde que eles se arrependam. Segue abaixo, algumas recitações mais benévolas que contrabalançam as anteriores.
E a recompensa de má ação é má ação igual a ela. E que a indulta (perdoa) e se emenda (se transforma), seu prêmio impenderá (caberá) a Allah. Por certo ele não ama os injustos.”
E, em verdade, quem pacienta e perdoa, por certo, isso dá firmeza indispensável em todas as resoluções.”22         
E quem se volta arrependido, depois de sua injustiça, e se emenda (se transforma), por certo, Allah Se voltará para ele, redimindo-o. Por certo, Allah é perdoador, Misericordiador.”23
 “...quem mata uma pessoa, sem que esta haja matado outra ou semeado corrupção na terra, será como se matasse todos os homens. E quem lhe dá a vida será como se desse a vida a todos os homens...24  

Homicídio no Espiritismo:
O Espiritismo sendo uma ciência, demonstra a imortalidade da alma através da mediunidade. Assim, as comunicações de além-túmulo nos esclarecem que a situação das almas das mulheres e homens que já morreram depende fundamentalmente do bem e do mal praticados em vida. Que elas serão mais bem-aventuradas ou mais desgraçadas de acordo com a sua conduta perante o seu semelhante. Esclarecem também que a sua inteligência, caráter, memória, os sentimentos de afeto e desafeto, simpatia e antipatia para com aqueles que ainda estão na Terra, enfim, a sua consciência permanecem preservadas mesmo após a morte corporal. Portanto, ninguém se tornará bom ou mau simplesmente porque morreu.
Como consequência da imortalidade da alma, os sentimentos de ódio, orgulho e inveja conduzem muita das vezes, as almas a se vingarem daqueles que lhe prejudicaram e/ou lhe magoaram.
 A obsessão gera muitos transtornos psíquicos
Equivoca-se o homem materialista que planeja e executa um homicídio para se beneficiar financeiramente, quitar uma dívida, fazer acerto de contas, ou mesmo se vingar, pois além de transgredir a lei natural, tendo que passar por processos expiatórios muito dolorosos, ele corre o sério risco de ganhar um novo inimigo, só que agora ele é invisível. O resultado desta trama é, pois, a obsessão que pode se agravar dependendo da situação, pois se não houver uma mudança de conduta moral, tanto do obsessor, mas principalmente do obsediado, ela pode evoluir para uma fascinação e até subjugação. Por fim, essas influências perniciosas que causam muitos transtornos psíquicos e desestrutura a família podem perdurar até após a morte do obsediado.
É natural que o espírita se questione qual deve ser a situação dos terroristas após a morte. Diante de um fundamentalismo religioso extremista, podemos propor a seguinte situação:
Vamos supor que os terroristas do Charlie acreditam sinceramente que cometeram um ato heroico em nome de Allah (Deus) e do Profeta Maomé. Diante dessas circunstâncias, eles saem em pune diante de Deus? Não há transgressão da lei natural em casos como esse? Eles ficarão em “Jardins, abaixo dos quais correm rios”, ao lado de Allah, conforme a sua religião os ensinou? Recorremos aos esclarecimentos dos Espíritos para solução desta questão.
O mal é sempre o mal e não há sofisma que faça se torne boa uma ação má. A responsabilidade, porém, do mal é relativa aos meios de que o homem disponha para compreendê-lo...”25
Portanto, caberá apenas ao Criador do Universo avaliar suas consciências para medir o grau de responsabilidade desses atos bárbaros que essas almas praticaram. Quanto a nós, espíritas, caberá orarmos e pedirmos que essas almas, ainda em ignorância sobre as verdades espirituais, possam retomar suas consciências e se arrependerem dos seus equívocos. Que seus processos expiatórios possam ser aliviados pelas nossas orações e que o desejo da reparação possa brotar em seus corações. Roguemos também pelo arrependimento dos homens que planejaram esse ataque.
Quanto aos cartunistas e todas as pessoas mortas neste ataque, roguemos que eles possam não desejar a vingança, evitando perseguições aos seus algozes. Enfim, que eles possam tomar consciência da sua atual condição e perdoá-los para seguir em frente agora no plano espiritual, que é a verdadeira Pátria.

O Fundamentalismo Religioso é contrário à lei de Progresso
Assim como o Homem de Nazaré afirmou que as leis de Moisés precisavam passar por mudanças, dedicando parte de sua vida a transformação delas e dos costumes judaicos, ele fez o mesmo com relação aos seus próprios ensinos, pois deixou claro que não deu a última palavra. Vejamos o que ele disse a esse respeito:
“Se me amais, guardai os meus mandamentos — e eu pedirei a meu Pai e ele vos enviará outro Consolador, a fim de que fique eternamente convosco: — O Espírito de Verdade que o mundo não pode receber, porque não o vê; vós, porém, o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós. — Mas o Consolador, que é o Espírito Santo, que meu Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e fará vos lembreis de tudo o que vos tenho dito.”26  
Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas presentemente não as podeis suportar.”
“Quando vier esse Espírito de Verdade, ele vos ensinará toda a verdade, porquanto não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tenha escutado e vos anunciará as coisas porvindouras. Ele me glorificará, porque receberá do que está em mim e vo-lo anunciará.27
Deixemos a palavra com Kardec para esclarecer a passagem do Consolador Prometido:
Esta predição, não há contestar, é uma das mais importantes, do ponto de vista religioso, porquanto comprova, sem a possibilidade do menor equívoco, que Jesus não disse tudo o que tinha a dizer, pela razão de que não o teriam compreendido nem mesmo seus apóstolos, visto que a eles é que o Mestre se dirigia. Se lhes houvesse dado instruções secretas, os Evangelhos fariam referência a tais instruções. Ora, desde que ele não disse tudo a seus apóstolos, os sucessores destes não terão podido saber mais do que eles, com relação ao que foi dito; ter-se-ão possivelmente enganado, quanto ao sentido das palavras do Senhor, ou dado interpretação falsa aos seus pensamentos, muitas vezes velados sob a forma parabólica. As religiões que se fundaram no Evangelho não podem, pois, dizer-se possuidoras de toda a verdade, porquanto ele, Jesus, reservou para si a completação ulterior de seus ensinamentos. O princípio da imutabilidade, em que elas se firmam, constitui um desmentido às próprias palavras do Cristo.28
Mas por que as revelações religiosas ao longo da história cometeram equívocos e não divulgaram toda a verdade a seus fiéis? Para esclarecer esta questão, pomos abaixo uma sequência de perguntas retiradas de “O Livro dos Espíritos”:
Confiou Deus a certos homens a missão de revelarem a sua lei?
“Indubitavelmente. Em todos os tempos houve homens que tiveram essa missão. São Espíritos superiores, que encarnam com o fim de fazer progredir a Humanidade.”
Os que hão pretendido instruir os homens na lei de Deus não se têm enganado algumas vezes, fazendo-os transviar-se por meio de falsos princípios?
“Certamente hão dado causa a que os homens se transviassem aqueles que não eram inspirados por Deus e que, por ambição, tomaram sobre si um encargo que lhes não fora cometido. Todavia, como eram, afinal, homens de gênio, mesmo entre os erros que ensinaram, grandes verdades muitas vezes se encontram.”
Qual o caráter do verdadeiro profeta?
O verdadeiro profeta é um homem de bem, inspirado por Deus. Podeis reconhecê-lo pelas suas palavras e pelos seus atos. Impossível é que Deus se sirva da boca do mentiroso para ensinar a verdade.”
Por que a verdade não foi sempre posta ao alcance de toda gente?
“Importa que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a luz: o homem precisa habituar-se a ela, pouco a pouco; do contrário, fica deslumbrado.29
Escada representando a evolução incessante do homem
Assim, os homens inspirados por Deus que ainda são seres em evolução podem perfeitamente tomar suas próprias ideias, ainda impregnadas de orgulho, egoísmo e vaidade, como verdades absolutas e divulgá-las como de origem divina. Portanto, para receber essa inspiração é necessário ser digno dela, alinhando os pensamentos, com o falar e o fazer.
No que diz respeito à divulgação progressiva da verdade, o leitor atento vai perceber que os Espíritos corroboram com os ditos do Homem de Nazaré: a verdade é revelada de acordo com o grau de evolução moral e intelectual da humanidade. O Espiritismo sendo uma ciência, também está sujeito à mesma lei de Progresso, pois sofrerá modificações de acordo com a evolução humana e da própria ciência. As religiões, no entanto, terão que reavaliar seus artigos de fé, seus dogmas e perguntarem a si mesmas o que ainda tem a oferecer ao homem.
Para finalizar esta parte, os Espíritos mandam um recado aos religiosos e adeptos de doutrinas que acreditam que só a sua fé ou convicção é detentora exclusiva da verdade.
Por que indícios se poderá reconhecer, entre todas as doutrinas que alimentam a pretensão de ser a expressão única da verdade, a que tem o direito de se apresentar como tal?
Será aquela que mais homens de bem e menos hipócritas fizer, isto é, pela prática da lei de amor na sua maior pureza e na sua mais ampla aplicação. Esse o sinal por que reconhecereis que uma doutrina é boa, visto que toda doutrina que tiver por efeito semear a desunião e estabelecer uma linha de separação entre os filhos de Deus não pode deixar de ser falsa e perniciosa.30

Fundamentalismo Religioso, conclusões:
Diante dos argumentos expostos sobre as escrituras sagradas das três religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo; podemos concluir que o fundamentalismo religioso pode levar facilmente seus fiéis a cometerem as maiores atrocidades em nome de Deus. Foram encontradas nas escrituras muitas justificativas que incentivam à prática do homicídio, com fins de vingança ou simplesmente devido à intolerância religiosa, contrariando as leis naturais já discutidas acima.
As escrituras para serem bem compreendidas no seu verdadeiro sentido, devem ser contextualizadas do ponto de vista histórico, social, cultural, político e até econômico, para que o homem de hoje não caia no equívoco de trazer para sua realidade ensinos, conceitos, ideias, orientações e regras que só faziam sentido na época em que foi escrito ou revelado. Em outros casos, é preferível que ignoremos as escrituras que só causam discórdia e dissensão, incentivando o ódio e a guerra, sentimentos e posturas contrárias à lei natural. Portanto, as Religiões precisam admitir que para cumprir com seus propósitos de poderoso auxiliar de transformação moral e ético da humanidade e não ficarem para trás com os novos anseios e necessidades da sociedade contemporânea, têm que se render a inexorável força do progresso.
      Por João Viegas
Referências bibliográficas:
1.    Êxodo cap. 20, vv 13;
2.    Êxodo cap. 21, vv 12 a 16;
3.    Levítico cap 20, vv 10;
4.    Êxodo cap. 22 vv 20;
5.    Êxodo cap. 21 vv 24;
6.    1 Reis caps.16 a 18;
7.    Levítico cap. 19 vv 16 a 18;
8.    Mateus cap. 5 vv 17;
9.    Mateus cap. 5 vv 38 a 41;
10. Mateus cap. 5 vv 21;
11. João cap.8 vv. 7;
12. João cap.8 vv. 11;
13. Mateus cap. 10 vv 34 a 36;
14. Alcorão surata 8, vv 65;
15. Alcorão surata 5, vv 33;
16. Alcorão surata 8, vv 12 a 14;
17. Alcorão surata 3, vv 169;
18. Alcorão surata 3, vv 195;   
19. Alcorão surata 4, vv 74;
20. Alcorão surata 9, vv 5;  
21. Alcorão surata 9, vv 11;
22. Alcorão surata 42, vv 40 e 43;
23. Alcorão surata 5, vv 39  
24. Alcorão surata 5, vv 32;
25. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Escravidão, cap. X Da Lei de Liberdade, Parte Terceira.
26. João, cap. 14 vv 15 a 17 e 26;
27. João, cap 16 vv 12 a 14;
28. KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Anunciação do Consolador, cap. XVII Predições do Evangelho.
29. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Conhecimento da Lei Natural, cap. I Da Lei Divina ou Natural, Parte Terceira.
30. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Liberdade de Consciência, cap. X Da Lei de Liberdade, Parte Terceira.
31. Revista Superinteressante, edição 343 – fevereiro de 2015 – Editora abril    
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6 comentários:

  1. João, saudações!! Muito bom o artigo como sempre.. gostei especialmente do chamado final para que todas as religiões possam se "atualizar/contextualizar" ou quem dera racionalizar.. rsr Gostaria de comentar que é impossível não percebermos que o caráter racional, dialético, científico do espiritismo permite libertarmo-nos de um aprisionamento fundamentalista violento ao qual muitos talvez se rendam por ignorância, ansiando por respostas que signifiquem nossa existencia; ou ate mesmo pela identificação historico-cultural.. De qualquer modo, esse triste episodio, assim como tantos outros que nos cercam todos os dias, nos mostra a necessidade da caridade, que aprendi ser o amor em ação. Que possamos fortalecer nossa fé e agirmos também na contramão da violência. Grata por compartilhar esse artigo conosco João. P.s: Grata também a contribuição do Tiago com a indicação do texto do Leornado Boff, o qual achei mt relevante por nos apresentar uma perspectiva complementar.

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    1. Querida Vinícia!
      Eu também sou muito grato pelas suas participações e colaborações valiosas no blog. Mais uma vez você está de parabéns! À medida que estudamos Kardec, com a sua visão positivista e científica do Espiritismo, concluímos como o movimento espírita brasileiro está distante da prática de seu fundador. Percebendo esse abismo, é nosso propósito com o blog resgatar um pouquinho desta prática.
      Um grande abraço!

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  2. P.s. 2: aguardando a 4 parte.. liberdade de expressão é um tema que realmente instiga mts discussões.

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    1. O próximo artigo é mais um desafio para este blogueiro rsrsrs...

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  3. Tem algumas coisas que não se deve discutir, são elas: futebol, política, religião e filosofia, pois cada um tem a sua opinião. Agora o que nunca deve faltar é o respeito e tolerância pela opinião alheia. Recentemente, no Rio de Janeiro, pessoas intolerantes e inguinorantes (no sentido de não ter conhecimento), invadiram e quebraram alguns centros de umbanda. Será que essas pessoas desconhecem que nosso povo é formado pela mistura de muitas raças e culturas, principalmente a negra?
    Com relação a interpretação dos “livros sagrados”, as pessoas esquecem que eles são livros que narram os costumes, os rituais, a cultura... do povo e da época em que foram escritos, portanto são livros históricos e não podem ser seguidos ao pé da letra.
    Antº Carlos Holanda

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    1. Saudações meu querido amigo Antônio Carlos! Fico sempre muito feliz com suas participações e colaborações no blog. Muito obrigado!
      Pois bem, meu amigo, você nos trouxe um fato próximo da nossa realidade que sugere fundamentalismo religioso. Mesmo que ele não tenha causado vítimas fatais, ele é digno de nossa repúdia, pois além de ser um crime perante as leis civis, é um desrespeito ao próximo. Vou pesquisar esse assunto. Obrigado!
      Pois é meu amigo, o problema nessa estória é que o fundamentalista religioso ignora absolutamente tudo o que você disse sobre os "livros sagrados". Ele entende que tudo que lá está escrito é de inspiração divina, e, portanto, deve ser seguido à risca. Infelizmente, são pessoas ignorantes como foi muito bem dito pelo amigo.
      Um grande abraço!

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