terça-feira, 28 de outubro de 2014

É Dando que se Recebe?

A Sociedade brasileira ficou aterrorizada com as declarações bombásticas à Justiça Federal do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef, acerca de um esquema de corrupção na maior empresa do País, com pagamento de propina a partidos políticos durante os anos de 2006 a 2012.
Em delação premiada, Costa e Youssef esclareceram à Justiça como funcionava o esquema: os diretores da Petrobras e o doleiro negociavam com as empreiteiras o percentual da propina. Em contrapartida, as empresas conseguiam os contratos. O dinheiro da propina saia dos cofres das empresas e era distribuído aos diretores da Petrobras, a políticos e também ao doleiro.
Em dado momento Youssef esclarece que sem o pagamento da propina, o contrato não era fechado.
Costa resume a lógica do sistema:
“Se houve erro, e houve erro... foi a partir da entrada minha na diretoria por envolvimento com grupos políticos principalmente que, usando a oração de São Francisco, que é 'dando que se recebe'. Eles usam muito isso”. 1 (Grifos nossos)

A Sociedade capitalista na qual se vive hoje é baseada nas relações de interesses recíprocos: o trabalhador procura por um emprego para oferecer a sua força de trabalho, em contrapartida espera receber um salário digno de seu empregador; os pais de família procuram uma escola que proporcione aos seus filhos uma educação de qualidade, em troca a escola deve cobrar um preço justo pelos serviços prestados; uma empresa fornece matéria-prima à outra que vai manufaturá-lo para produzir um produto para venda, em contrapartida, a empresa fornecedora espera receber um preço justo pela matéria-prima fornecida.
Podemos enumerar muitos casos de relações de interesses recíprocos nos quais ambas as partes saem ganhando sem que haja transgressão das leis humanas, respeitando também as leis de livre mercado estabelecidas pela economia. Portanto, todas essas relações são legítimas, podendo se aplicar o mesmo verso da Oração de São Francisco: “é dando que se recebe”.
No entanto, vemos claramente no caso de investigação de corrupção na Petrobras uma distorção absurda do referido verso, numa tentativa desesperada de justificar através dos dogmas da religião, o desvio de conduta e infração das leis humanas para satisfação dos interesses pessoais dos envolvidos.
Uma análise mais abrangente da Oração de São Francisco, podemos concluir facilmente que seu autor não se refere às relações capitalistas, mas sim, às relações de beneficência e benevolência, ou seja, a nossa capacidade de renunciar aos nossos interesses para servir ao próximo: seja consolando-o das suas dores, dando-lhe esperanças de uma vida melhor, seja fortalecendo a sua confiança em Deus e nele mesmo, seja perdoando mesmo que não sejamos perdoados, seja praticando o bem àqueles que nos querem mal.
É neste sentido que devemos lembrar os sábios ensinos do Homem de Nazaré, quando diz:
Tende cuidado em não praticar as boas obras diante dos homens, para serem vistas, pois, do contrário, não recebereis recompensa de vosso Pai que está nos céus. – Assim, quando derdes esmola, não trombeteeis, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Digo-vos, em verdade, que eles já receberam sua recompensa. – Quando derdes esmola, não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa mão direita; – a fim de que a esmola fique em segredo, e vosso Pai, que vê o que se passa em segredo, vos recompensará. 2
Disse também àquele que o convidara: Quando derdes um jantar ou uma ceia, não convideis nem os vossos amigos, nem os vossos irmãos, nem os vossos parentes, nem os vossos vizinhos que forem ricos, para que em seguida não vos convidem a seu turno e assim retribuam o que de vós receberam. – Quando derdes um festim, convidai para ele os pobres, os estropiados, os coxos e os cegos. – E sereis ditosos por não terem eles meios de vo-lo retribuir, pois isso será retribuído na ressurreição dos justos. 3
Assim, não se deve esperar recompensas materiais ou morais, nem reconhecimento, nem gratidão daqueles que foram beneficiados pelas nossas boas ações. Por outro lado, aqueles que vestem a capa da bondade e da caridade para serem glorificados pelos homens, e assim ganharem respeito e consideração pelas suas “boas obras”, Jesus já sentenciou: “eles já receberam sua recompensa”.
Os seus ensinos são tão claros que nem são necessários os esclarecimentos dos Espíritos Superiores, pois não há ambiguidades nas suas palavras quando se trata de fazer o bem, que sintetizamos abaixo: o bem deve ser feito pelo simples prazer de fazer o bem, nada mais do que isso.
Portanto, não transportemos a lógica do sistema capitalista, por mais justa e correta que ela seja perante as leis humanas, para as nossas relações de beneficência e benevolência. Quem pensa e age assim desperdiça inúmeras oportunidades de renunciar a seu orgulho, egoísmo e vaidade, pois este é um dos propósitos de fazer o bem.
Os espíritas que têm a convicção na vida futura e na existência do Pai Criador do Universo soberanamente justo e bom devem saber que todas as suas ações serão avaliadas pela sua intenção do que pelos seus efeitos. Tudo isso será contabilizado quando chegar o momento de regressar ao plano espiritual.
  
Por João Viegas
Referências bibliográficas:
2. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 99ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Fazer o bem sem ostentação, cap. XIII Que a Vossa Mão Esquerda não Saiba o que Dá a Vossa Mão Direita.
3. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 99ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Convidar os Pobres e os Estropiados, cap. XIII Que a Vossa Mão Esquerda não Saiba o que Dá a Vossa Mão Direita.
4. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Caridade e Amor ao Próximo, cap. XI, Parte Terceira – Da Lei de Justiça
5. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, As virtudes e os vícios, cap. XII, Parte Terceira – Da Perfeição Moral
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2 comentários:

  1. Belo texto, oportunidade muito boa a partir de algo que nos entristece: o mal uso das oportunidades de crescimento e de auxílio que as posições superiores em empresas podem proporcionar. Você fez um ótimo uso do contexto. Abraço amigo.
    Heitor

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  2. Saudações meu nobre amigo Heitor!
    Agradeço pela sua participação e contribuição no blog, esteja sempre à vontade para fazê-lo. Muito obrigado também pelas suas palavras de elogio e incentivo.
    Um grande abraço!

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