terça-feira, 16 de setembro de 2014

Allan Kardec: Fundador do Espiritismo

Homenagem ao centanário de Kardec
Os espíritas classificam e definem Allan Kardec como o Codificador1 do Espiritismo. No entanto, uma análise mais justa de como desenrolou a revelação espírita e do trabalho e papel de Kardec, concluiremos que esse atributo dado a ele é incompatível com a sua missão e inadequado a sua trajetória de vida. Veremos, portanto, que o atributo mais condizente é de Fundador do Espiritismo2. Para nos convencer disto é necessário compreender a amplitude da sua missão.
Os dicionaristas definem a palavra “codificar”: reunir em código, compilar, coligir, sendo a palavra “codificador” seu substantivo3. O argumento muito utilizado pelos próprios espíritas é o seguinte: como a filosofia espírita é de autoria dos Espíritos, e não dos homens, coube a Allan Kardec o trabalho de organizar, reunir e compilar as comunicações que os Espíritos deram através da mediunidade em livros para publicação e conhecimento da sociedade.
O argumento de que a filosofia espírita pertence aos Espíritos é verdadeiro, e o próprio Kardec deixa bem clara esta questão em suas obras4. No entanto, ele ignora o fato que a filosofia espírita é resultado e consequência da ciência espírita. Se assim não fosse, teríamos apenas um corpo doutrinário cheio de equívocos, ideias controversas e antagônicas, pois seria apenas um conglomerado de opiniões pessoais dos Espíritos. Por fim, a revelação espírita careceria de seu caráter verdadeiro, e com o passar do tempo seria esquecido pelos homens.
O relato de Kardec abaixo descreve a sua iniciação no Espiritismo, ficando evidente a sua postura investigativa, cautelosa e séria perante as manifestações espíritas:
“Apliquei a essa nova ciência,..., o método experimental; nunca elaborei teorias preconcebidas; observava cuidadosamente, comparava, deduzia consequências; dos efeitos procurava remontar às causas, por dedução e pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo por válida uma explicação, senão quando resolvia todas as dificuldades da questão... Compreendi, antes de tudo, a gravidade da exploração que ia empreender; percebi, naqueles fenômenos, a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro da Humanidade, a solução que eu procurara em toda a minha vida. Era,..., toda uma revolução nas ideias e nas crenças; fazia-se mister, portanto, andar com a maior circunspeção e não levianamente; ser positivista e não idealista, para não me deixar iludir.”5
Kardec teve que se precaver de muitos problemas inerentes às manifestações espíritas, pois sabia que para conseguir alcançar as comunicações do mais alto conhecimento e sabedoria deveria se desvencilhar do charlatanismo, do embuste e da comercialização da mediunidade, práticas muito comuns a sua época e até os dias de hoje.
Mas isso não era suficiente. Mesmo as sessões espíritas cujos seus participantes: médiuns, evocadores e ouvintes sejam mulheres e homens de bem e estejam com as melhores das boas intenções, podem ser vítimas de espíritos mistificadores, que se passam por vultos dignos de respeito, apenas para ganhar a nossa confiança e plantar ideias equivocadas, controversas ou maliciosas com o intuito de criar a dúvida, a discórdia e a divisão.
Para se prevenir de todas as dificuldades inerentes à mediunidade, ele lançou as bases da ciência espírita, que se chama “Controle Universal do Ensino dos Espíritos”6. Uma metodologia na qual vários Espíritos, em locais diferentes, com médiuns distintos, nos ensinam espontaneamente sobre as questões da mais alta gravidade para filosofia: quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Ele pôde comparar os ensinos que possuíam coerência, lógica e concordância daqueles que não passam de um equívoco, de uma opinião pessoal ou de uma ignorância.
Toda Ciência tem seus fundadores ou pais, que são mulheres e homens de gênio que conseguem ver aquilo que está além de seu tempo, transcendendo as limitadas percepções humanas, promovendo uma ruptura de conceitos equivocados e ultrapassados que eram tidos como verdades absolutas, derrubando-os e trazendo o novo, impulsionando, por fim, o progresso da humanidade.
O Espiritismo sendo uma Ciência, necessariamente tem seu fundador, e este é Allan Kardec. Sua missão consistia em fundá-lo, mas também em difundi-lo. É neste ponto que a sua missão tornou-se mais áspera. Veja abaixo a resposta que o Espírito Verdade deu a Kardec sobre as dificuldades que se depararia para o cumprimento de sua missão. Esta comunicação ocorreu antes da publicação de “O Livro dos Espíritos”, 1º livro de Kardec.                   
“P. — Que causas poderiam determinar o meu malogro? Seria a insuficiência das minhas capacidades?”
“R. — Não; mas, a missão dos reformadores é prenhe de escolhos e perigos. Previno-te de que é rude a tua, porquanto se trata de abalar e transformar o mundo inteiro. Não suponhas que te baste publicar um livro, dois livros, dez livros, para em seguida ficares tranquilamente em casa. Tens que expor a tua pessoa. Suscitarás contra ti ódios terríveis; inimigos encarniçados se conjurarão para tua perda; ver-te-ás a braços com a malevolência, com a calúnia, com a traição mesma dos que te parecerão os mais dedicados; as tuas melhores instruções serão desprezadas e falseadas; por mais de uma vez sucumbirás sob o peso da fadiga; numa palavra: terás de sustentar uma luta quase contínua, com sacrifício de teu repouso, da tua tranquilidade, da tua saúde e até da tua vida, pois, sem isso, viverias muito mais tempo... Para tais missões, não basta a inteligência. Faz-se mister, primeiramente, para agradar a Deus, humildade, modéstia e desinteresse, visto que Ele abate os orgulhosos, os presunçosos e os ambiciosos. Para lutar contra os homens, são indispensáveis coragem, perseverança e inabalável firmeza. Também são de necessidade prudência e tato, a fim de conduzir as coisas de modo conveniente e não lhes comprometer o êxito com palavras ou medidas intempestivas. Exigem-se, por fim, devotamento, abnegação e disposição a todos os sacrifícios.
Vês, assim, que a tua missão está subordinada a condições que dependem de ti.”7
A profecia do Espírito Verdade concretizou-se. Dez anos após a referida comunicação, Kardec confirma absolutamente tudo que foi escrito. Porém, não se arrependeu de sua decisão de aceitar sem restrição a sua missão, pois teve a certeza que logrou êxito.
A ideia de um Codificador do Espiritismo nos restringe a ver Kardec apenas como um homem intelectual sentado tranquilamente à sua mesa de trabalho a analisar documentos. Em contrapartida, a ideia de um Fundador do Espiritismo, amplia a nossa visão acerca dele, pois enxergamos um homem à frente de seu tempo, experimentando, investigando e examinando as manifestações espíritas, e das suas deduções produzindo vasto material sobre a sua experiência nesta ciência. Por fim, enxergamos Kardec em busca daquilo que todo homem de ciência e filosofia deseja: a verdade. Qual dessas ideias é mais compatível com o que Kardec foi de fato?        
Os espíritas que compreendem a magnitude da missão de Kardec, estejam convencidos que a melhor maneira de presenteá-lo em seu 210º aniversário de nascimento que se dará no próximo dia 03 de outubro é estudar suas obras. Que o resultado das meditações sobre todos os seus ensinos, orientações e recomendações possam transformar-se em ações para que o Espiritismo esteja protegido de possíveis deturpações e que cumpra a missão de tornar a sociedade mais justa, mais fraterna e mais solidária.
Por João Viegas
Referências bibliográficas:
1. Allan Kardec Codificador do Espiritismo, Capa, Ano 131, nº 2.215, Outubro de 2013, Revista Reformador, Federação Espírita Brasileira.
2. KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. especial Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, Biografia de Allan Kardec. 
KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 41ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1999, Biografia de Allan Kardec. 
3. Site internet:
Luft, Celso Pedro. Mini Dicionário Luft. São Paulo: Editora Scipione ltda e Editora Ática.
4. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Prolegômenos. 
5. KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. especial Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, A minha primeira iniciação no Espiritismo, segunda parte.
6. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 99ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Autoridade da Doutrina Espírita, item II, Introdução.
7. KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. especial Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, Minha missão, 12 de junho de 1856, A minha primeira iniciação no Espiritismo, segunda parte.

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8 comentários:

  1. Agradeço pelo seu elogio! Muito obrigado! No entanto, gostaria de saber, se possível, quem é o autor da postagem, pois publicando como anônimo, é necessário escrever seu nome no comentário para que eu possa identificá-lo.
    Um grande abraço!

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  2. Seu artigo é altamente esclarecedor e positivo no sentido de nos auxiliar a reconhecer e valorizar esse homem como devemos. O papel de Kardec foi e é muito maior, devemos esse reconhecimento por toda dedicação que ele teve. Que nós possamos nos afastar desse reducionismo que na verdade nos foi passado por tanto tempo, por instituições que deveriam ampliar nossas idéias a cerca do real espiritismo e que até hoje nos trazem tantos equívocos.
    Obrigada por seus esclarecimentos!!

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  3. Muito obrigado pelo seu apoio, motivação e incentivo! Suas palavras são combustível da alta qualidade que me fortalecem neste propósito do blog, levando aos espíritas e simpatizantes a essência do Espiritismo.
    Não há de que minha querida! Eu que agradeço pela oportunidade do trabalho e de ser útil.

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  4. Como todos os outros, adorei seu artigo!
    Allan Kardec foi a estrela terrena que fez o espiritismo reluzir com todo seu esplendor.
    De acordo com o dicionário:
    CODIFICADOR; Quem produz ou elabora código. Quem compila,organiza, sistematiza leis, regras e documentos.
    FUNDADOR; A quele que funda ou cria algo.
    De acordo com o sentido das palavras Allan Kardec não só codificou, como também fundou o espiritismo.
    No sentido de ter criado uma nova palavra "espiritismo",para designar algo que já existia há muito tempo.
    Pois a essência do espiritismo é de origem celestial, que dá ou mesmo um caráter espiritual.

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  5. Saudações minha querida Aldênia!
    Fico muito feliz pela sua participação aqui no blog! Esteja sempre à vontade para postar, mesmo que seja uma crírica, pois são nas diferenças que também crescemos!
    Sou grato pelo seu elogio pois me motiva a dar continuidade a este ofício. Procuro trabalhar com uma postura abnegada e humilde, pois só assim é possivel receber as inspirações necessárias para "tocar" a inteligência e também o coração dos amigos leitores.
    Agradeço pelas suas contribuições muito oportunas. A palavra "Espiritismo" foi realmente cunhada por Kardec, para definir a ciência e filosofia nascente, deixando o termo espiritualismo a acepção que lhe é própria.
    Um grande abraço!

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  6. Adorei esse artigo como é bom pessoas que pensa kardec.

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    1. Saudações Jose Marcos de Messias! Agradeço a sua participação aqui no blog e fico muito feliz pela sua avaliação positiva do artigo. Um grande abraço!

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