segunda-feira, 7 de julho de 2014

Quem é você?

Comédia "Tratamento de Choque" de 2003
A comédia “Tratamento de Choque”, filme de 2003 com Adam Sandler e Jack Nicholson possui um cena que abre uma discussão bem humorada sobre a resposta ao título deste artigo. Dave Buznik, personagem vivido por Sandler é sentenciado a fazer uma terapia de raiva após passar por uma confusão entre uma aeromoça e um policial durante um voo. Para isso, ele procura o Dr. Buddy Rydell (Nicholson) que o convida a uma terapia de grupo. Após ter ouvido os dilemas de alguns de seus colegas chegou a sua vez de se apresentar. O Dr. Rydell pergunta:
“Então, Dave, nos fale de você. Quem é você?”
“Eu sou um assistente executivo de uma grande empresa de produtos para animais.”, responde Dave.   
“Dave, não quero que nos diga o que você faz, quero que diga quem é você?”, retruca o Doutor.
“Ah! Eu sou um bom rapaz. Eu gosto de jogar tênis de vez em quando...”, disse Dave.
“Não quero saber de seu robby, Dave. Simplifique, diga quem é você?”, indaga novamente o Doutor. Depois de alguma resistência em responder, ele continua.
“Eu sou um cara gentil, calmo, um pouquinho indeciso de vez em quando...”
O Dr. Novamente o interrompe, dizendo:
“Dave, está descrevendo sua personalidade. Eu quero saber quem é você?”. Dave perde a paciência com o Dr. Rydell, gritando com ele, criando um grande constrangimento perante o grupo.
O oráculo de Delfos, templo religioso pagão, à época do antigo mundo grego, foi construído para o deus Apolo, sendo muito visitado por reis, generais, colonizadores e cidadãos comuns. Todos estavam em busca de respostas, orientações e conselhos às suas dúvidas que Apolo profetizava através de uma mulher. No entanto, existem registros que na entrada do oráculo havia a seguinte inscrição:
“Conhece-te a ti mesmo”.7       
Será que nós ainda continuamos a repetir os costumes de nossos antepassados gregos? Buscando respostas às nossas dúvidas no meio externo? Esquecendo que muitas delas se encontram em nosso íntimo? A Doutrina espírita faz um resgate deste ensinamento.
A resposta à pergunta de nº 919 de “O Livro dos Espíritos” nos ajuda a esclarecer esta questão. Os espíritos esclarecem que para o homem conseguir se melhorar e resistir ao mal é necessário o conhecimento de si mesmo, recomendação já feita pelos filósofos gregos.
Mas Kardec insiste: Qual o meio de consegui-lo? Segue abaixo parte da orientação do Espírito Santo Agostinho.
“...Aquele que, todas as noites, evocasse todas as ações que praticara durante o dia e inquirisse de si mesmo o bem ou o mal que houvera feito, rogando a Deus e ao seu anjo de guarda que o esclarecessem, grande força adquiriria para se aperfeiçoar...”, e continua.
“O conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do progresso individual.”1
Podemos também analisar esta questão por outro ponto de vista. Mais uma vez recorro aos filósofos gregos.
Sócrates e seu discípulo Platão foram filósofos gregos que viveram há mais de 300 a.C., e que acreditavam na existência da alma. Eles foram mais além, pois não só defenderam a imortalidade da alma como também a sua existência anterior ao corpo físico e as vidas sucessivas. Platão desenvolveu uma teoria sobre os dois mundos: o primeiro é o mundo que conhecemos; carnal, palpável e sensorial. O segundo é o mundo das ideias; imaterial, impalpável e inteligível. O corpo para a alma é um cárcere onde ela anseia se libertar e retornar para a sua verdadeira morada, de onde saiu que é o mundo das ideias.
Ao estudar Sócrates e Platão, como fez Kardec na introdução de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” é fácil concluir que estes filósofos já traziam o gérmen dos princípios espíritas, assim como Jesus de Nazaré introduziu no povo judeu o conceito sobre a vida futura, chamando o mundo das ideias de Sócrates e Platão de Reino de Deus e dos Céus.
Os Espíritos Superiores mais uma vez ratificam estes ensinamentos através da resposta à pergunta de nº 76 de “O Livro dos Espíritos”. Kardec questiona:
“Que definição se pode dar dos Espíritos?”
“Pode dizer-se que os Espíritos são seres inteligentes da criação. Povoam o Universo, fora do mundo material.”2, respondem os espíritos.
Nós somos também espíritos, com a diferença que estamos temporariamente revestidos deste corpo físico, e retornaremos ao mundo espiritual assim que este invólucro perecível não tiver mais condições de ser “habitado” por nós, ou seja, quando se der a sua morte o espírito se liberta carregando consigo a sua individualidade, consciência, inteligência e caráter, trazendo da Terra apenas o bem e o mal feitos aos outros e a si mesmo.
Nós não vamos nos transformar em pessoas melhores só pelo fato da morte corporal. Seremos os mesmos, com as mesmas angústias, desejos e caráter. Portanto, tratemos de seguir os conselhos dos filósofos gregos e de Santo Agostinho para aproveitar ao máximo a dádiva da vida encarnada.
Por João Viegas

Referências bibliográficas:
1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Conhecimento de si mesmo, cap. XII Da perfeição moral, Parte Terceira – Das leis morais
2. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Origem e natureza dos Espíritos, cap. I Dos Espíritos, Parte Segunda – Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos.
6. A Fonte do Poder, no Oráculo de Delfos, John R. Hale, Jelle Zeilinga De Boer, Jeffrey P. Chanton e Henry A. Spiller; setembro de 2003, pág. 58. da revista SCIENTIFIC AMERICAN Brasil.
7. O Mundo de Sofia – Romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr.. 24a reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, O Oráculos de Delfos, Cap. O Destino.
       8. O Mundo de Sofia – Romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr.. 24a reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, Cap. Platão.

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2 comentários:

  1. João, adorei o artigo!! Mt boa a citação do filme (que por sinal é mt bom) e as referências a Sócrates e Platão em associação a doutrina espírita. A doutrina nos esclarece no evangelho qd diz "Não se pode servir a Deus e a Mamon" que a verdadeira vida é a espiritual e a despeito de mts tentarem conciliar os interesses materias e espirituais é necessário que o estudo e esforço seja contínuo para que de fato possamos compreender essa verdade(que a vida espiritual é a verdadeira). Acredito que apenas dessa forma estaremos de fato aptos/livres a nos conhecer e a ter uma experiencia encarnados mais produtiva.

    Abraços,

    Vinicia

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    1. Saudações Vinícia! Muito obrigado pelo seu apoio e incentivo! As suas reflexões são muito relevantes. O Espiritismo é uma filosofia que ataca o Materialismo, em todos os seus níveis. Só a convicção na vida espiritual permite nos afastar dessas ideias que apenas potencializam nosso orgulho, egoísmo e vaidade. Um grande abraço!

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