quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

As Controvérsias do Nascimento de Jesus de Nazaré – Quando nasceu?


Presépio: representação do nascimento de Jesus
Desde que foi possível analisar e criticar as Escrituras cristãs sem que a Igreja lambesse em chamas seus opositores, inúmeras controvérsias foram descobertas acerca da vida de Jesus: nascimento, criação, Ministério e morte. As diversas “Vidas de Jesus”, obras lançadas por intelectuais dos séculos XVIII e XIX EC, foram ataques contundentes e ácidos ao homem de Nazaré. Essas obras foram o início de uma longa jornada para construir o que hoje a ciência chama da busca do “Jesus Histórico”, ou seja, a busca do homem de carne e osso que está por trás do mito cunhado há milênios pela fé cristã.
Ao aproximar da data natalina, naturalmente suscita nas mentes interessadas questionamentos acerca do seu nascimento. Sendo assim, vamos, neste artigo, buscar responder, com um viés histórico, quando Jesus nasceu.
Antes de iniciar essa discussão, gostaria de fazer um breve esclarecimento para facilitar a escrita. Como estamos adotando uma postura não religiosa, mudaremos o tratamento que se dá as datas citadas. Ao invés de usar A.C (Antes de Cristo) e D.C. (Depois de Cristo), serão utilizadas as siglas AEC (Antes da Era Comum) e EC (Era Comum). Apesar disso, não há qualquer impacto cronológico em nosso calendário.
De acordo com a tradição cristã podemos afirmar, com uma boa dose de fé, pois todo fiel aprendeu na Igreja e responde sem gaguejar, que “Jesus Cristo nasceu no dia 25 de dezembro, há 2018 anos, em Belém da Judéia, numa manjedoura cercado por animais e presentes, estes oferecidos por três reis magos que vieram do oriente para adorá-lo”.
Para rebater e retificar a resposta dada acima, vamos utilizar as próprias Escrituras cristãs e documentos não cristãos para perceber que não foi bem assim que aconteceu. Veremos também que existem alguns fakes acerca do nascimento de Jesus. No entanto, como já foi dito, vamos apenas discorrer sobre quando ele nasceu. Pois bem, vamos lá:
          
a)    Em que ano Jesus nasceu?
São Mateus e o Anjo
As fontes canônicas do Novo Testamento que relatam o nascimento de Jesus de Nazaré são os evangelhos de Mateus e de Lucas. Ao compará-las entre si com outros documentos não cristãos, vamos concluir que existem inconsistências acerca de seu nascimento.  
A primeira delas é que Mateus afirma que “Jesus nasceu em Belém da Judeia no tempo do rei Herodes”1. Segundo fontes não cristãs, Herodes foi rei de diversas regiões, dentre as quais a Judeia de 37 AEC a 4 AEC, ano em que Herodes morreu.
Lucas, no entanto, afirma que “Jesus nasceu durante o recenseamento imposto pelo imperador romano César Augusto a todas as terras sob o jugo de Roma, enquanto Quirino era governador da Síria”2. De fato, segundo fontes não cristãs, Augusto foi imperador de 30 AEC a 14 EC. Ainda assim, de acordo com o historiador judeu Flavio Josefo, o recenseamento sob Quirino ocorreu em 6 EC apenas na Judeia. Diante do exposto, é praticamente certo que Lucas tenha cometido um equívoco, expandindo um evento local a uma escala mundial, pois não há registros de recenseamento a todo o império sob Augusto.
O deslize de Lucas torna-se pequeno quando comparamos com Mateus. Afinal de contas, segundo Mateus, Jesus nasceu no máximo até 4 AEC. Porém, Lucas afirma que o nascimento ocorreu em 6 EC. Ou seja, de qualquer forma, Jesus não nasceu no início desta Era. Como ocorreu este erro?
O responsável por adequar nosso calendário ao nascimento de Jesus foi o Monge Dionísio, o pequeno, no século VI EC. Ele fez basicamente o seguinte: pegou duas informações contidas em Lucas. A primeira é o ano da pregação de João Batista e a segunda é a idade de Jesus neste período. Pois bem, consta que “a pregação de Batista ocorreu no 15º ano do império de Tibério”3. De fato, Tibério sucedeu a Augusto no ano 14 EC.
Naquela ocasião, os anos eram contatos pelo tempo que cada imperador romano permanecesse no poder. Concomitante a essa contagem, havia também a da fundação de Roma. Sendo assim, o 15º ano do império de Tibério corresponde ao 782º ano da fundação de Roma.
São Lucas mostra sua pintura da Virgem Maria
Lucas afirma que “Jesus tinha mais ou menos 30 anos quando começou seu Ministério”4. Daí o Monge Dionísio fez as contas: subtraiu 29 anos completos de Jesus por 782, concluindo que o nascimento ocorreu em 753º ano da fundação de Roma6. Esse ano caiu justamente 4 anos após a morte de Herodes e 6 anos antes do recenseamento de Quirino. Este ano foi batizado pelo Monge com “anno Domini”, que quer dizer “ano do Senhor”, representando o ano de seu nascimento.
Apesar de toda essa confusão envolvendo o ano do nascimento de Jesus, que foi exposta de forma sucinta acima, há um entendimento dos especialistas de que Jesus nasceu no tempo do rei Herodes entre 8 a 6 AEC.    
O leitor atento vai perceber que Dionísio fundamentou-se em informações muito imprecisas fornecidas por Lucas, principalmente no que diz respeito a sua idade. É provável que o Monge não teve acesso a informações sobre quando se deu a morte de Herodes e o ano do recenseamento sob Quirino, ou simplesmente ignorou, confiando na infalibilidade das Escrituras cristãs.
Segue, portanto, que há um entendimento entre especialistas que Jesus começou seu Ministério com pelo menos 33 anos de idade, podendo chegar até 36.  




Agora, se o ano de seu nascimento é um problema, imagine a data. Com efeito, não há registros nos evangelhos, sejam canônicos ou apócrifos, e nem nas documentações não cristãs da data de seu nascimento.
b) Por que os cristãos comemoram o nascimento de Jesus em 25 de dezembro?
Para explicar essa questão, deve ser levado em consideração uma questão histórica.
Foi a partir do século IV EC que o imperador Constantino se converteu a fé cristã, tornando o Cristianismo a religião oficial do império romano7, e deixando para trás o Paganismo. Sendo assim, é provável que a disseminação da nova religião do império tenha provocado a absorção das tradições pagãs ao Cristianismo. Como exemplo, a data de nascimento de Jesus, que os cristãos comemoram em 25 de dezembro, é na verdade, oriunda de uma festa pagã: a festa do Sol invencível.
Do ponto de vista geográfico, existe uma data no ano que possui o dia mais curto e a noite mais longa. Ela é chamada de solstício de inverno, sendo caracterizado como o início do inverno. Segundo o calendário romano, o solstício de inverno era 25 de dezembro.
O Sol para os romanos tinha um significado muito forte, pois acreditava-se que os astros influenciavam nos destinos das pessoas. No caso do Sol, a imagem de um astro que triunfa sobre a noite escura a cada amanhecer, dá a ideia de vitória, e de uma vitória ininterrupta. Sendo assim, era comemorado em 25 de dezembro o nascimento do Sol, pois, os dias subsequentes começam a se alongar e o Sol a brilhar com mais fulgor. 
Figura de Cristo vestido como o Deus Sol.
Portanto, “era uma das grandes festas do Paganismo; solenes e magníficos jogos eram promovidos pelo soberano em honra do Sol Invencível.”5
Tudo que foi exposto acima acerca da data de nascimento de Jesus foi para mostrar que a tradição cristã referente a esse aspecto não está fundamentada nas Escrituras. Que o Cristianismo sofreu influências do Paganismo quando se tornou difundido no império romano, sendo, do ponto de vista histórico, um fato natural, assim como ocorre a fusão de culturas de povos diferentes quando se misturam.
Entretanto, há especulações sobre as possíveis datas ou períodos que Jesus tenha nascido, baseados em alguns indícios, mas prefiro me abster para não ser demasiadamente especulativo.           
Pois bem, querido leitor, terminamos por aqui essa breve viagem acerca das controvérsias do nascimento de Jesus. Espero sinceramente ter contribuído ao seu senso crítico e ter feito com que repensasse a maneira como encara as Escrituras e as tradições cristãs. Até a próxima!
Por João Viegas
    Referências bibliográficas:
1. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Mateus cap. 2 vv 1.
2. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Lucas cap. 2 vv 1 a 7.
3. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Lucas cap. 3 vv 1 a 3.
4. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Lucas cap. 3 vv 23.
5. Hollard, Auguste. As Origens dos Feriados Cristãos.
6. Luís Carmelo. O murmurar inquieto dos milénios. Disponível em http://www.bocc.ubi.pt/_esp/autor.php?codautor=94
7. Ehrman, Bart D. O Que Jesus Disse? O Que Jesus não Disse? Quem mudou a bíblia e por quê; tradução Marco Marciolino. 2ª edição, Rio de Janeiro, Editora Agir, 2015. 


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sábado, 1 de dezembro de 2018

ESPIRITEENS DEZEMBRO 2018


 Segue abaixo mais uma edição do Jornal ESPIRITEENS referente ao mês de dezembro de 2018. Este jornal pertence a Juventude Amor e Luz (JAL), da qual sou evangelizador. A JAL acontece todos os sábados no Grupo Espírita Amor e Luz (GEAL), sediado na Rua Ramos Ferreira, Manaus-AM. Segue, portanto, que ele é voltado para o público jovem de 13 a 21 anos. É pra mim motivo de muita alegria poder retornar as minhas origens no movimento espírita, trabalhando com jovens, e especialmente poder escrever pra eles nesse pequeno trabalho, mas que foi feito com muito amor! Espero que gostem! 





terça-feira, 13 de novembro de 2018

EspiriTEENS JULHO 2018

Segue abaixo mais uma edição do Jornal ESPIRITEENS referente ao mês de julho de 2018. Este jornal pertence a Juventude Amor e Luz (JAL), da qual sou evangelizador. A JAL acontece todos os sábados no Grupo Espírita Amor e Luz (GEAL), sediado na Rua Ramos Ferreira, Manaus-AM. Segue, portanto, que ele é voltado para o público jovem de 13 a 21 anos. É pra mim motivo de muita alegria poder retornar as minhas origens no movimento espírita, trabalhando com jovens, e especialmente poder escrever pra eles nesse pequeno trabalho, mas que foi feito com muito amor! Espero que gostem! 


EspiriTEENS JUNHO 2018

Segue abaixo mais uma edição do Jornal ESPIRITEENS referente ao mês de junho de 2018. Este jornal pertence a Juventude Amor e Luz (JAL), da qual sou evangelizador. A JAL acontece todos os sábados no Grupo Espírita Amor e Luz (GEAL), sediado na Rua Ramos Ferreira, Manaus-AM. Segue, portanto, que ele é voltado para o público jovem de 13 a 21 anos. É pra mim motivo de muita alegria poder retornar as minhas origens no movimento espírita, trabalhando com jovens, e especialmente poder escrever pra eles nesse pequeno trabalho, mas que foi feito com muito amor! Espero que gostem! 

  

terça-feira, 15 de maio de 2018

A Imortalidade da alma, segundo Sócrates e Platão

Escultura de Sócrates
Este artigo, que é a continuação de nossos estudos acerca das filosofias socrática e platônica, abrirá o debate sobre a imortalidade da alma segundo esses filósofos. Inevitavelmente, veremos a semelhança extraordinária entre a filosofia de Sócrates e do Espiritismo, semelhança esta que não diminui o mérito da Doutrina espírita, mas ao contrário, reafirma seus princípios como universais.
Não há originalidade nos princípios do Espiritismo, no sentido de que muitos deles já foram difundidos por vários filósofos, profetas e pela própria religião antes da revelação espírita. No entanto, a imortalidade da alma, que é um dogma das religiões, tem sua demonstração positiva e patente no Espiritismo e a sua originalidade está exatamente no seu caráter científico. Por isso, Kardec afirma que os espíritas são os adeptos do Espiritismo, pois compreenderam seus princípios pelo uso da ciência e da razão.
Para abrir este debate é necessário esclarecer a visão de Sócrates sobre a morte. Deixemos Sócrates falar (dialogo com o discípulo Símias):
- … Na nossa opinião, a morte é alguma coisa?
- Sim, certamente, disse Símias.
- Não é outra coisa senão a separação da alma do corpo, não é? Estar morto é bem isso: de um lado, separado da alma, o corpo isola-se em si mesmo; do outro, a alma, por sua vez, separada do corpo, é isolada em si mesma? Ou a morte será outra coisa?
- Não, é isso mesmo, disse ele.1
O conceito de morte dado por Sócrates é confirmado pela Doutrina dos Espíritos. No entanto, devemos complementar que a separação da alma do corpo não é a causa da morte, e sim sua consequência. Vejamos abaixo o que Kardec diz a esse respeito:
“Assim, não é a partida do Espírito que causa a morte do corpo; esta é que determina a partida do Espírito.”2
Podemos perfeitamente compreender que a palavra Espírito usada por Kardec no trecho acima tem o mesmo significado da palavra alma usada por Sócrates. 
O diálogo acima nos remete a questão principal deste artigo: segundo Sócrates, o que é a alma? Deixemos Sócrates nos esclarecer:
- Quando é, pois, continuou Sócrates, que a alma atinge a verdade? Portanto, quando é com auxílio do corpo que ela tenta resolver uma questão qualquer, a coisa, neste caso, é clara: o corpo a engana completamente.
- Dizes a verdade.
- Por conseguinte, não é no ato de raciocinar que a alma vê manifestar-se plenamente a realidade de um ser?
- Sim.
- E sem dúvida, ela raciocina melhor precisamente quando, livre de qualquer perturbação, parta esta dos ouvidos, dos olhos, de uma dor, ou, pior ainda, de um prazer; quando está isolada o mais possível em si mesma, afastando o corpo, interrompendo, na medida do possível, todo o contato com ele, aspira ao real.
- É assim.1
Sócrates dialoga com as pessoas
A alma para Sócrates é a própria consciência, ou seja, a capacidade de nos questionar e buscar respostas sobre a nossa própria existência: quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Essa capacidade independe do corpo. O ato de racionar é atributo da alma e sua manifestação torna-se cada vez mais plena à medida que se desvencilha dele. Isto pode dar-se em vida pelo desapego às paixões humanas que nos prendem à matéria. Mas, por ocasião da morte, ela será totalmente liberta e poderá julgar as coisas de um ponto de vista muito mais amplo, e assim conhecer a verdade.
Apesar de Sócrates admitir sua ignorância, o conhecimento, o saber e a pureza eram a sua busca incessante. Essa busca só terminaria com a libertação da alma por ocasião da morte. Esses são os motivos dele não temê-la. Apesar de se defender com esmero perante os juízes, encarou com tranquilidade o seu julgamento e condenação à morte.
“... o homem verdadeiramente amigo do saber e que alimentou no coração a firme esperança de que em nenhum outro lugar poderia encontrar esse saber na sua plenitude senão no Hades, iria lamentar-se ante a morte e não se alegraria de ir para aquele lugar? Eis o que deve se pensar, amigo, pelo menos se esse homem filosofar realmente; pois ele terá chegado a uma firme convicção de que em nenhum outro lugar encontrará o pensamento em sua pureza, senão naquele. Ora, sendo assim, não seria, como eu dizia há pouco, o cúmulo da falta de razão o medo da morte em tal homem?”1
No contexto do trecho acima, podemos afirmar que o Hades é a terra dos mortos segundo a mitologia grega. Comparativamente, seria o Reino dos Céus proclamado por Jesus, ou plano espiritual revelado pelo Espiritismo.
Os discípulos de Sócrates, diante deste bálsamo de sabedoria, duvidaram e questionaram a seu amigo do saber se realmente a alma é imortal. Naquela ocasião já podemos observar os primórdios da filosofia materialista que teve seu ápice no séc. XIX.  Vejamos o discurso de seu discípulo Cebes.
- Tudo isso, disse ele, na minha opinião, Sócrates, está certo, com exceção daquilo que, dizendo respeito à alma, é para os homens uma abundante fonte de incredulidade. É possível, dizem eles, que a alma, uma vez separada do corpo, não exista mais em nenhum lugar; talvez, no mesmo dia que o homem morra, ela se destrua e morra: desde o instante dessa separação, talvez ela saia do corpo para dissipar-se como um sopro, ou como fumo, e assim, esvaindo-se e desfazendo-se, nada mais seja, em nenhum lugar...”1                
A partir deste momento, teremos Sócrates apresentando a seus discípulos
Separação da alma do corpo por ocasião da morte 
diversos argumentos a favor da imortalidade da alma. Para convencê-los, Sócrates utiliza-se apenas do pensamento e da razão. Naturalmente, vamos encontrar essa postura filosófica na Doutrina Espírita, na defesa de seus pontos fundamentais, que na ocasião da revelação, não podiam ser demonstrados pela ciência. A reencarnação e a pluralidade dos mundos habitados são princípios que foram revelados pelos Espíritos Superiores, através da mediunidade, nos quais Kardec não tinha condições de utilizar a Ciência para corroborar com os ensinos do além. Atualmente, com o progresso da ciência, esses conceitos já estão sendo investigados com caráter científico.
Segue, portanto, que estudar filosofia deve ser um ofício dos adeptos do Espiritismo. O convencimento dos postulados espíritas está diretamente relacionado com o desenvolvimento do raciocínio, da razão. Por isso, a Doutrina nos convida para o salutar hábito da leitura edificante, mas também do estudo das leis espirituais. Em contrapartida, o estudo doutrinário deve implicar no despertar das consciências, na necessidade de mudança de conduta para com o próximo. Pois este é o propósito da revelação espírita. A definição do que é o Espiritismo, feita por Kardec, manda um recado claro sobre este proprósito.
“O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos: como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam destas mesmas relações.”3
Por fim, a filosofia, tal qual aquela proferida pelas palavras de Sócrates e Platão, devem repercutir em nosso foro íntimo na direção de nossa transformação moral.   
Por João Viegas
    Referências bibliográficas:
1. Platão. Fédon. Tradução de Miguel Ruas. 3ª reimpressão. São Paulo - SP, A morte é a libertação do pensamento – Primeira parte.
2. KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, cap. XI, item 18.
3. KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 41ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, preâmbulo.
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sábado, 28 de abril de 2018

ESPIRITEENS MAIO 2018

Segue abaixo mais uma edição do Jornal ESPIRITEENS referente ao mês de maio de 2018. Este jornal pertence a Juventude Amor e Luz (JAL), da qual sou evangelizador. A JAL acontece todos os sábados no Grupo Espírita Amor e Luz (GEAL), sediado na Rua Ramos Ferreira, Manaus-AM. Segue, portanto, que ele é voltado para o público jovem de 13 a 21 anos. É pra mim motivo de muita alegria poder retornar as minhas origens no movimento espírita, trabalhando com jovens, e especialmente poder escrever pra eles nesse pequeno trabalho, mas que foi feito com muito amor! Espero que gostem!  




quinta-feira, 12 de abril de 2018

Os Verdadeiros Filósofos segundo Sócrates

Escultura da mãe, parteira e o bebe 

Quando o espírita estuda as filosofias socrática e platônica, fica forçosamente impulsionado a compará-las a espírita, pela semelhança de seus princípios. Isto não significa dizer que o Espiritismo tenha se inspirado ou copiado as ideias de Sócrates e Platão, pois eles viveram muito antes da revelação espírita. Este fato é resultado que as verdades espirituais, que são leis divinas e imutáveis, estão ao alcance de todo aquele que deseja e busca a verdade, desde que a procure com humildade e abnegação. No entanto, vários são os métodos para aquisição deste conhecimento e é nisto que elas se diferenciam. Estudemos de forma detalhada os matizes destas filosofias.
É oportuno esclarecer a maneira pela qual Sócrates encarava a filosofia, pois a sua postura foi um divisor de águas para o mundo greco-romano. Um dos pilares da filosofia de Sócrates chama-se maiêutica. Ele julgava-se desprovido de sabedoria e comparava seu ofício de filósofo ao de uma parteira, que ajudam as mulheres a darem à luz a seus filhos. Sócrates, no entanto, ajudava homens a conceber suas ideias. É por isso que nos deparamos na grande maioria de sua fala, diálogos com seus discípulos, e não monólogos.
O posicionamento maiêutico de Sócrates nos leva a acreditar que é autor da célebre frase: “Conhece-te a ti mesmo”. No entanto, os registros históricos indicam que esta frase foi inscrita na entrada do oráculo de Delfos, templo religioso pagão, onde o deus Apolo profetizava através de uma mulher, chamada sacerdotisa ou pitonisa. Assim, Sócrates afirma que esta é sua busca conforme o trecho abaixo:
- Até agora não fui capaz de conhecer-me a mim mesmo, conforme aquilo do oráculo de Delfos”; “É a alma, portanto, que nos recomenda conhecer quem nos apresenta o preceito: Conhece-te a ti mesmo.”4        
Sócrates é contemporâneo dos sofistas. Os sofistas eram pessoas cultas, especialistas em determinado assunto, viajadas e ganhavam a vida ensinando os cidadãos de Atenas. Os sofistas tinham como pedra angular a seguinte afirmação: “O homem é a medida de cada coisa”1. Isto significa que o certo e o errado, o bem e o mal são relativos, devendo ser avaliados de acordo com a necessidade humana. Assim, a defesa de uma tese dependia apenas dos bons argumentos apresentados, ou seja, para que uma afirmação seja verdadeira, basta apresentar argumentos que convençam o ouvinte de sua veracidade. Assim, para um sofista, a mesma tese pode ser defendida ou acusada de acordo com a necessidade de cada um.
Ruínas do Oráculo de Delfos
De maneira diversa dos sofistas, Sócrates não cobrava pelos seus ensinos. Ia junto ao povo, nas praças, nos mercados para dialogar com as pessoas. Não fez viagens, morando em Atenas por toda sua vida. Acreditava que existia a verdade, pois ela é objeto de desejo de todo filósofo e só poderia ser apreendida quando o homem se desvencilhasse de seu comércio com o corpo. O filósofo deve apenas cuidar da alma. Veja um diálogo com seu discípulo Símias que evidencia este conceito:     
- ... Parece-te próprio de um filósofo preocupar-se com o que diz respeito aos chamados prazeres, como por exemplo, comer e beber?
- O menos possível, Sócrates, respondeu Símias.
- E aos prazeres do amor?
- Não.
- E em relação aos outros cuidados com o corpo? Achas que eles têm algum valor para o filósofo? Assim, por exemplo, a posse de um traje belo ou de calçados caros ou de qualquer outro embelezamento destinado ao corpo, na tua opinião, deve ser coisa que o filósofo tenha em apreço...?
- Ele terá tais coisas em desapreço, disse, pelo menos se for realmente filósofo.
- Então, de modo geral, prosseguiu Sócrates, achas que as preocupações de tal homem não se dirigem ao que concerne ao corpo, mas, ao contrário, na medida do possível, elas dele se separam e se dirigem à alma?
- Sim, sem dúvida.
- Assim, pois, para começar, não é em circunstâncias deste gênero que se revela o filósofo, quando, o mais possível, ele liberta a alma do comércio com o corpo, ao contrário do que fazem os outros homens?
- É claro.
“... Aqueles que, no sentido preciso do termo, cuidam de filosofar, permanecem afastados de todos os desejos corporais sem exceção, mantendo uma atitude inflexível e não cedendo às paixões. A perda de patrimônios, a pobreza, não lhes causa medo, como acontece com a multidão dos amigos da riqueza; e nem a existência sem honrarias e sem glória...”2 

O esquilo Scrat do filme a "A Era do Gelo" apegado à sua noz
Se analisarmos a sociedade atual sob a ótica socrática, concluiremos que o nosso comportamento consumista que o capitalismo nos convida a tomar nos distancia da filosofia, ou seja, de sermos realmente filósofos: a busca pela aquisição de bens materiais apenas para satisfação de nosso orgulho, egoísmo e vaidade é reprovável por Sócrates. Assim, o desapego às coisas materiais deve ser uma diretriz de vida de todo filósofo. Portanto, o filósofo é acima de tudo um homem de conduta. Mas por que se deve ter esta postura?
Continuemos com Sócrates:
“Se, com efeito, é impossível, na união com o corpo, conhecer algo com pureza, das duas uma: ou não nos é possível, de nenhuma maneira, adquirirmos o saber ou, então, somente será possível quando estivermos mortos, pois será apenas nesse momento que a alma estará em si mesma e por ela mesma, separada do corpo, e não antes.” 2
“Além disso, durante o tempo que a nossa vida possa durar, estaremos – segundo parece – o mais perto do saber precisamente quando tivermos o menos possível comércio ou sociedade com o corpo...” 2
A busca da sabedoria, da pureza, do conhecimento, da verdade está diretamente relacionada à sua conduta, ao seu comportamento, principalmente no que diz respeito ao desapego às coisas materiais. Segundo Sócrates, esse saber poderá ser alcançado em vida à medida que nos desapegamos das coisas materiais, mas só será completo quando nos separarmos definitivamente do corpo, por ocasião da morte.
Este diálogo naturalmente suscita outro questionamento: O que é alma para Sócrates? Esta questão não será respondida neste momento, sendo assunto para o próximo artigo deste blog, quando daremos prosseguimento à filosofia Socrática e Platônica. Porém, faço uma breve reflexão: o espírita pode ser enquadrado como um verdadeiro filósofo segundo Sócrates? A afirmação de Kardec abaixo tem alguma relação com o pensamento de Sócrates:
Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.” 5
Deixo a cargo do amigo leitor esta reflexão comparativa entre os verdadeiros filósofos e espíritas.
Por João Viegas
Referências bibliográficas:
1. O Mundo de Sofia – Romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr.. 24a reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, Cap. Sócrates ...mais inteligente é aquele que sabe que não sabe.
2. Platão. Fédon. Tradução de Miguel Ruas. 3ª reimpressão. São Paulo - SP, A morte é a libertação do pensamento – Primeira parte.
3. O Mundo de Sofia – Romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr.. 24a reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, Uma voz divina, Cap. Sócrates.
4. Concepção e imortalidade da alma em Platão, Evandro PEGORARO Juliano de SOUZA, Jun-Dez 2010, Revista Mirabilia 11.
Site internet:
5. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 99ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Os bons espíritas, cap. XVII Sede Perfeitos.

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